sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Só me levanto por que é injusto desperdiçar um olhar

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Só me levanto por que é injusto desperdiçar um olhar


mas me aborrece este fluir jacente...


Agonia perpetua,


acolho o que me pertence.


Sei que o executável é pouco,


assim, não esqueço do que me ilude,


pois é justamente no incognoscível,


na pequenez dos muitos universos,


na insignificância que não permite a satisfação,


que me encontro.


Afinal, o que seriam dos contos de fadas sem as bruxas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Não é no silenciar que encontraremos a resposta para o problema.


Acordei com uma sensação de indignação. Estou indignada comigo, pois um amigo morreu na fila do Hospital de Urgência de Goiânia e eu não disse palavras. Todos os dias os jornais noticiam a mesma coisa, mas hoje eu conhecia o motivador da reportagem. Um rapaz de 36 anos, que depois de um dia inteiro sem assistência hospitalar morreu, como morrem milhões de brasileiros sem direito a atendimento.

Até a metade do século XX, não existia sistema de saúde no Brasil. Quem tinha dinheiro era tratado em instituições privadas e os trabalhadores em clinicas e hospitais dos sindicatos. Nas áreas urbanas, os pobres procuravam ajuda nas instituições filantrópicas. Nas áreas rurais, camponeses e meeiros tinham de confiar em curandeiros ou cuidadores leigos para suas necessidades de saúde. No auge da redemocratização do país, a Constituição de 1988 declarou que a saúde era um direito do cidadão e um dever do Estado. Posteriormente, foi organizado o Sistema Único de Saúde, ou SUS, com os princípios da universalidade, integralidade assistencial, promoção da saúde e participação da comunidade, com fundos públicos para a prestação de cuidados de saúde gratuitos para os cidadãos brasileiros.

Ora, não é porque a história da universalidade da saúde no Brasil só tem 23 anos é que devemos nos calar diante da perda de uma vida. O cidadão comum, como eu, precisa se organizar em defesa do direito universal a saúde, afinal se não for assim, continuaremos adormecidos diante de campanhas para doação de órgãos, enquanto os hospitais não conseguem realizar o mínimo de transplantes necessários.

Teremos de achar bonito ver ex-presidente falar de tratamento para câncer, enquanto a doença avança no Brasil e as pessoas não tem tratamento. Conforme o tipo de tratamento, nem a metade dos pacientes que procuram o Sistema Único de Saúde (SUS) conseguem assistência. E, num contexto em que o tempo é fundamental para a cura ou a sobrevida, a espera média pela primeira sessão de radioterapia chega a ser desesperadora: mais de três meses. Os dados constam de auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). Conforme o relatório, as unidades públicas de saúde deveriam ter atendido em 2010 169,3 mil doentes que necessitavam radioterapia, mas só 111,5 mil foram contemplados (65%). No caso das cirurgias oncológicas, os números são ainda piores: de 152,4 mil pessoas, 71,2 mil ou 46% conseguiram passar pelo procedimento. Logo, muito ainda precisa ser feito em prol do direito a vida e não é no silenciar que encontraremos a resposta para o problema.

sábado, 26 de novembro de 2011

NADA PRECISAVA SER EXPLICADO

Dois dias era o tempo exato que afastava Joana do aniquilamento da mãe, mas para ela o tempo não existia. Olhava para o fogão e via nitidamente a mãe fazendo o café, com seu jeito calmo e acomodado. Joana observa a mãe com estranheza. Seus olhos captavam uma cena, que parecia um quadro pintado por algum gênio criador, onde as cores se misturavam, se complementavam, numa dança suave e perturbadora. O que era existir? Pensou  Joana. Se alguém não me conhece eu não existo, afinal só a consciência do outro é que me faz concreta. Sou concreta dentro da cabeça de alguém. Fora dela não sou, então, o que serei eu? apenas um pensamento de alguém. Muitos pensamentos atravessavam a mente de Joana e ela tentava encontrar uma explicação, arriscando entender porque a mãe deixou de ser.
Joana sonhava, mas não um sonho comum ou surrealista, era mais uma visão, como se não estivesse dormindo. Ela notava seu espírito se projetando além do seu corpo, sorria diante de uma luz azulada, que cobria seu rosto, depois, do alto, observava a mãe caminhando pela casa, olhando cada detalhe, às vezes sentando, outras correndo.
Joana plainava acima da mãe e nada confundia aquele momento. Paz e harmonia, nenhuma lágrima, nada de hierarquia, apenas duas mulheres se encontrando, sem nada para dizer. Não havia necessidade de palavras, porque nada precisava ser explicado. Tudo cristalino. Nenhuma separação, aquele distanciamento que sentimos diante de algo que não somos nós, cada coisa uma coisa. No sonho o universo não se estendia, era homogêneo, único, completo. E Joana sentia sua completude.
- Joana! Gritou o pai
- Aii! Acordou assustada.
- Hora de trabalhar filha, logo você acostuma.
Joana pegou a lamparina da mão do pai e caminhou para a cozinha a fim de fazer o café, abriu a janela e observou a escuridão...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

NÃO CHORAVA POR DESCONHECIDOS

   
 Joana correu, com movimentos acelerados, um pé na frente do outro sem trégua e nenhum lugar parecia bom para descansar. Doía-lhe tudo, os cabelos, as pernas, a barriga, os olhos, que não cessavam de verter lágrimas. Uma dor tão grande, sem lugar. Sentia que estava pronta para enlouquecer. Tudo rompendo, como uma terrível tempestade, raios enormes, trovões assustadores. Joana caiu gritando, urrando, como um animal abatido.
   Depois de algumas horas a calma. Lembrou-se dos 8 irmãos que teria de alimentar, vestir, confortar... Recordou o olhar desolado do pai e o pedido da mãe para que tomasse conta de todos.
   Não podia pensar com seus 12 anos, pois a única coisa que queria era que a mãe não tivesse morrido e pudesse colocá-la no colo. O cheio de mãe é tão bom. A quenturinha que exala do seu corpo, parece cheiro de mel pensou.
   Joana balançou a cabeça, levantou e caminhou de volta para casa. Tinha os ombros alçados, tal qual soldado, pernas a marchar. De longe pode ver a aglomeração que se formava a porta do casebre. Olhou para baixo e percebeu que estava descalça e seu vestido muito sujo. Fez de conta que vestia sua melhor roupa e suportou os olhares de pêsames. Procurou os irmãos, que estavam encolhidos ao pé do fogão a lenha. Banhados, cabelos bem penteados e todos com suas roupas de missa. Os mais velhos choramingavam.
- Por onde andou? Perguntou o pai com um fio de voz.
- Esfriando a cabeça. Olhou para baixo.
- Já vamos levar sua mãe para sede da fazenda, o patrão disse que podemos enterrá-la no cemitério da fazenda.
- E o padre?
- Sabe que nesta lonjura não vem padre.
- Mamãe ia querer. Tem o senhor Jordenho da venda, que ajuda o padre em dia de missa.
- Vou falar com o patrão. Saiu com passos de gato.
  Joana olhou ao redor e percebeu a solidariedade das mulheres, lavaram a roupa, varreram a casa, fizeram comida para os pequenos e café para a multidão.
   Era preciso tomar coragem e entrar na sala, onde jazia inerte sua mãe, respirou fundo e caminhou bem devagar. Viu primeiro o lençol branco, depois algumas flores, colhidas do quintal e por fim um rosto. Estranho olhar uma pessoa que morreu. Parece não ser minha mãe. Esta não é minha mãe, pensou Joana e não chorou, pois não chorava por desconhecidos.

domingo, 13 de novembro de 2011

como dizia MFC


mfc disse...

Todo o vento é mensageiro!
Todo o vento é mudança!
Todo o vento deve ser ouvido...

Joana caminhou rapidamente até o rio. Seus olhos estavam alheios, fixos em algo que não pertencia àquele lugar. O ar apertado, sem vento, fazendo todos os sentidos de Joana aguçar. Com o pote, ela pegou água, colocou na cabeça e retornou para junto de sua mãe.
Avistou a pequena casa e ouviu o murmurar das mulheres a rezar. Na porta, sentado em um banco de madeira, permanecia seu pai por mais de 20 horas, com o mesmo olhar de Joana. Ao longe 8 crianças brincam sem saber de nada. Joana observou a correria do pique - esconde e deseja não ser a irmã mais velha. Queria brincar, correr, não desejava continua ali, ouvindo os gritos, escutando o cochicho das vizinhas, sem poder fazer nada.
- Joana!
- Sim.
- Entre no quarto, sua mãe chama.
As pernas bambearam, o coração disparou. Entrou com a sensação dos mal-afortunados. Não reconheceu o rosto da mãe, transfigurado de dor, de uma palidez bucólica, parecia a Virgem Maria.
- Venha Joana, não tenho muito tempo.
- Que foi mãe.
- O bebê não quer nascer.
- Não. (Começou a chorar)
- Minha filha, eu sei que tem apenas 12 anos, mas deve ser forte. Seu pai vai precisar muito de sua ajuda e seus irmãos ainda mais.
- Não quero ouvir.
- Escuta, cuide de todos, por mim. Prometa filha que nunca vai abandonar seus irmãos.
- Eu prometo. (Saiu correndo do quarto, como se mil demônios a perseguissem)
Lá fora o vento furioso levantava a poeira. Vento mensageiro. Vento de mudança, como dizia MFC.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011



Um vento polvoroso de agosto,

soprou forte, com gosto.
Por onde ele havia andado?
Não se sabia.
Quantas noites ele refrescou?
Quantas árvores tentaram detê-lo?
Ninguém o conhece.
É apenas um vento.
Sem passado.
Sem futuro.
Não disse a que veio.
Nada perguntou.
Apenas é parte de um momento, que aconteceu em agosto.
Rendido por uma alma humana.
Soprou e passou.
Como passam todas as coisas...
Pessoas...
Situações...
Momentos...
Evaporando por entre a insignificante percepção.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Infecção generalizada do planeta!

As pessoas ficam horrorizadas com dados estatísticos de mortes por acidentes, por catástrofes, “Et cetera” e tal. Eu, particularmente, fico abismada com a quantidade da população mundial, que passa dos 7 bilhões. Como é possivel tantos seres de uma mesma espécie habitando um único lugar? Posso dizer que é quase uma infecção generalizada do planeta.

Levando-se em conta que a maioria das pessoas não tem responsabilidade para com o outro (aquele que é diferente delas mesmas) e que suas ações são pautadas na sastifação imediata de suas necessidades, seja elas quais forem, podemos concluir que as perspectivas para uma existência humana tranquila são ínfimas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011


Vou seguir os passos da minha amiga Regina em uma deliciosa brincadeira  ‘lista bombardeável’, que está envolvendo uma turma legal de blogueir@s e blogueiros. proposta pela escritora Carla Ceres, autora do blog ‘Algo além dos Livros’ http://carlaceres.blogspot.com/.

Devo apresentar uma lista com 10 coisas de que não gosto e, conforme a regra, escolher 10 amigos para fazer o mesmo. Escolho pessoas que gosto de ler, apesar de não conhecê-las pessoalmente.


Vamos brincar?

Ivone poemas http://henristo.blogspot.com/

Célia http://celiarangel.blogspot.com/

MFC http://pedemeias.blogspot.com/

Jair Clopes http://jairclopes.blogspot.com/

Chica http://cuidandonossocanteirointerior.blogspot.com/

Ludugero http://ludugero.blogspot.com/

Contraponto http://subjetobjeto.blogspot.com/

Sandra Puff http://sapatinhosdadorothy.blogspot.com/

Paulo Estevam http://pontesferreiraarts.blogspot.com/

Ani http://cristalssp.blogspot.com/



NÃO GOSTO...
1. Que as pessoas que eu amo morram

 
2. Não saber dizer as palavras certas, nas horas certas

 
3. Que a juventude seja tão breve

 
4. Não ter resposta para as questões humanas

 
5. Saber pouco

 
6. Engordar

 
7. Não ter dinheiro para viajar
Lugares para viajar no fim do ano
 
8. Não ser uma excelente escritora
 
(Cora Coralina)
 
9. Morrer antes dos  300 anos


10. Não ter tempo para ler bons livros

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

SOMOS TODOS ESPÍRITAS!!




Duas pessoas caminham lado a lado.
- Carla é espírita?
- Não sei, pensava que era católica.
- Católicos são espíritas.
- Como?
- Não adoram santos? Os santos não estão mortos? Acreditam que alguém que está morto pode ajudá-los, então são espíritas.
- É verdade... bem se é assim, então os evangélicos também são espíritas.
- Por quê?
- Jesus morreu. Os cristãos acreditam num morto. Todo morto não é espírito?  
- Ressuscitar é diferente!!
- Não vejo onde, a bíblia prova isso, em Lucas 24: 46 – “... convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos.”
- Ele não reencarnou em outro corpo, ele ressuscitou no seu próprio corpo.
- Tanto faz. Morreu e voltou. Não importa o nome que se dê. Lembre-se do que disse Lucas 20:37, “Mas que os mortos hão de ressurgir, o próprio Moisés o mostrou, na passagem a respeito da sarça quando chama ao Senhor; Deus de Abraão, e Deus de Isaque, e Deus de Jacó”. E continua 20:38 “Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele todos vivem.” Se para Deus não existe o estado da morte, então, para qualquer espírito o fato dele  habitar um corpo ou não é a mesma coisa, logo somos todos espíritas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Faceira e orgulhosa



Joana zelosa.
Toda prosa.
Um pouco preguiçosa.
Aprendendo que a vida brota...
Em lágrimas, gargalhadas, suspiros...
Joana prosa
Toda zelosa
Faceira e orgulhosa
Um pouco preguiçosa
Aprendendo que nem sempre é possível deter...
O tempo, o pensamento, o sentimento...
Joana, faceira e orgulhosa

domingo, 9 de outubro de 2011

Aprendendo a dizer não


Por muitas vezes, nós fazemos coisas, aborrecidos por dentro. Agimos  como se não houvesse alternativa.
Amanda, de 6 anos, ficou triste, porque sua mãe entregou-lhe um saco de balinha dizendo:
- Divida com seus colegas!
Ela o fez, contudo retornou com a carinha triste, tão própria dos condenados.
- O que foi? Perguntou a mãe.
- Não sobrou nenhuma balinha, eles pegaram tudo.
- Ora filha, você deveria ter separado as suas e depois dividido.
- A senhora disse que não era para eu desobedecer.
A mãe ficou pensativa. Realmente, ensinou sua filha a obedecer sem questionar, não só ela, mas qualquer adulto (autoridade). Mesmo que Amanda estivesse certa, deveria obedecer.
A mãe pensou que, Amanda acabaria por se torna uma adulta cúmplice das maiores perversidades sociais. Afinal foi treinada a obedecer a qualquer autoridade. Pensou na mulher que apanha calada, para não desobedecer ao marido (que lembra o pai repressor). O trabalhador que baixa a cabeça diante do patrão, que não lhe paga seus direitos. O assessor que calado observa, enquanto o político corrupto rouba e dilapida as riquezas do país. São tantos exemplos, contudo o que realmente importa é que, a mãe de Amanda percebeu a grande mazela de obedecer sem questionar.

sábado, 1 de outubro de 2011

A lógica da percepção

Um arco-íris em torno do sol pode ser visto por bolivianos, em La Paz Foto: EFE
Ontem, 30/09/2011 (sexta-feira), várias pessoas, em Goiânia-GO, olhavam para o céu, como crianças espantadas e felizes. Comentavam umas com as outras, parecendo velhos conhecidos. Eu, como um animal curioso que sou, olhei o céu. Lá estava um sol magnífico, como eu jamais havia visto, tinha um anel em sua volta. Fiquei petrificada, relembrando as muitas imagens de destruição do planeta dos filmes hollywoodianos, aqueles, que tanto prazer me deram. Queria andar, mas meus pés recusaram, minha boca secou e aguardei por alguns minutos, que uma bola de fogo me consumisse. Nada aconteceu. Voltei para casa e liguei a televisão, pois ela sim, sabe de muita coisa.
O noticiário relatava um fenômeno gerado por causa da reflexão da luz solar no céu em dias de alta nebulosidade no céu, formando uma espécie de arco-íris em torno do sol, mas isso não me convenceu. Então fui para o oráculo GOOGLE, que tudo sabe e tudo vê e ele disse “O círculo de arco-íris é chamado Halo Solar um fenômeno óptico que ocorre na troposfera superior, onde as nuvens chegam nesta região, formando cristais de gelo que, com a luz solar é refletida e refratada, dividindo em cores por causa da dispersão, gerando este "círculo de arco-íris".
Minha razão quer acreditar nas explicações cientificas, mas a lógica da percepção fazia perguntas – Porque você tem quarenta anos e este fenômeno só aconteceu agora? Porque ele ocorreu numa sexta-feira? Ora, sabemos que os povos pagãos antigos reverenciavam seus deuses dedicando a sexta-feira ao astro Vênus (deusa do Amor e da Beleza) e desde que o homem começou a se comunicar o sol representa a luz divina. Meu coração ficou em paz, pois um arco-íris no sol em uma sexta-feira só deve significar coisas boas. Uma boa nova, quem sabe um novo despertar da consciência humana para as coisas que realmente tem importância, como o cuidado com os outros, a honestidade, a sinceridade, o respeito por toda manifestação de vida... Bom, cada um dá aos acontecimentos a versão que lhe convém.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma força mergulhando suas entranhas na inércia


O Chão limpo exala o cheiro de cera recém espalhada, Antônia, mesmo desacordada, sente o ardor invadir suas narinas. Duela consigo mesma, sua alma luta para abandonar o corpo, mas seu corpo, neste momento, não quer morrer.
Enfraquecida, a cabeça rodopia em mil pensamentos, mesmo possuindo um turbilhão dentro de si é capaz de ouvir os carros passando enlouquecidos pela rua, tudo é confusão.
O som alarga-se e espantada descobre ser apenas uma  pequena poeira solta no firmamento. Flutuado aleatoriamente, nublada, estrábica, tonta, desejosa de escapar, fugir da morte iminente e ter tempo para lutar contra sua insignificância.
Os braços doloridos, pois nas veias de seu corpo corre um sangue amarelado, fraco, sonso... talvez isto explique toda a sua passividade diante da vida.
Por muitos anos detestou ser mulher, pois alguma coisa, que ela não sabia ilustrar, a incomodava. Uma força mergulhando suas entranhas na inércia. Tinha vontade de ser diferente, queria ser capaz de revoltar-se, de uma forma tão completa, que toda a sua estrutura psicológica e física se modificasse, mas continuava sempre com o mesmo sorriso patético dos que ambicionam agradar.
Quis libertasse da servidão materna, que sempre a deixou indignada, afinal estar pronta a atender as necessidades dos filhos, que exigem, que ordenam, que manipulam, tão ferozmente, é de uma obscenidade chocante.
O rosto esfria, formigando pausadamente. Tudo que tem de seu é este ódio que aumenta, majora, sufoca diante do fato de morrer assim, entregue, sem dignidade... Sente a garganta apertasse, perde os sentidos lentamente... Lembrando-se da labuta do tanque cheio de roupas.
Roupas que parecem nunca ficarem limpas, num circulo infinito, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, tal qual o tique taque das goteiras de seu barracão e o canta do canarinho da terra.
– Teria nascido apenas para lavar roupas? Pensa Antônia. Ninguém se lembra de quem lava roupa, quem limpa o chão e muito menos de quem lava as vasilhas, porque aparentemente elas se sujam e se limpam por si só.
¬¬- Mulheres do lar são fantasmas!!! – quer gritar Antônia, sentindo o calor de lágrimas correndo por sua face, tudo em sua vida foi tão medíocre que chega a doer. Dói não ser ninguém. Lembrou-se do amado poeta Fernando pessoa que dizia:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Antônia sempre sonhou ser alguém, mas a percepção de que a vida é uma eterna repetição de fatos acontecidos, endoideceu Antônia. Louca ao ponto de permanecer dias internada em clinica psiquiátrica.
Longe de seu cotidiano fica em paz.
Esquece do mundo e de si mesma. Entorpecida pelos remédios, abrigada nos altos muros da compreensão medicinal. Despovoada da angústia que se escondem nas pequenas coisas.
Fragmentos de Antônia, eternos momentos onde quase sempre a língua narcotiza com o gosto salino das panelas entupidas de arroz, feijão, abóbora... A fadiga do choro estridente das crianças, tudo se transmuda em esquecimento e não há mais ninguém no quarto.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para “eu” me liberta de “mim”.


O que fala o eu de mim? Às vezes digo "para mim" e então um zunzunzum imperativo grita “Para mim! Não, PARA EU!” fico meio azoinada, se já não o era antes, e me embanano em mim. Ops, ou será me embanano em eu? Outras vezes ao telefone, sem pensar em nada, lanço, “vou estar te ligando”. Soam as cornetas, sinos, batuques... e em prantos a língua vernácula me olha estarrecida. "Para mim!" Ops, lá vou eu inundada de mim. Em desespero quero me afogar na gramática, mas ela se recusa, toda tinhosa, cheia de nuances. Assim pode... Assim não pode. Pior que donzela em noite de núpcias. O que preciso mesmo é de um “chip”, programado para solucionar todas as minhas moléstias da língua portuguesa. Um programinha de computador abrigado em minha cabeça, só assim, para “eu” me liberta de “mim”. Bom mesmo seria ser índio, onde o que vale é a língua falada. Tenho certeza de que um indiozinho, depois de me ouvir, diria:
- Que mania de falar bonito! para eu basta que me entendam.
Outro indiozinho:
- Para mim, também.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Temos compaixão do que é nosso

Rede de Proteção Para Apartamentos Sacadas e Janelas Rede de Proteção Para Sacadas e Janelas

Temos compaixão do que é nosso.
Se sóis filho, mesmo fora do trilho.
Somos obnubilados pela lembrança do brilho.
Do sorriso da infância.
Das lágrimas pelo machucado.
Do presente aberto no natal.
Das pequenas gentilezas.
Temos compaixão do que é nosso.
Muito mais do que pela dor alheia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O querer do coração.


Depois de um tempo a gente aprende que realmente é uma ilha, cercada de sentimentos por todos os lados. E que muitas vezes falamos do outro, enquanto agimos da mesma forma. Se alguém me perguntasse se gosto de ser assim. Diria, para mim tudo bem, mas quando tenho de convencer outra ilha de que ela está no caminho errado, surge à impotência. Sim, temos um problema grande, inenarrável e cruel, porque nenhum argumento da razão será útil, quando o que inunda é o sentimento, as sensações, o querer do coração.
De nada adianta conhecer conceitos de ética, moral, justiça, justeza de caráter, se no fundo os sentimentos de passar a perna no outro, de levar vantagens e de conseguir sempre lucro faz o coração bater mais forte.
O dia que o sentimento da paixão estiver interligado a conduta moral e ética correta, então neste dia um justo abrirá um enorme sorriso de contentamento.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Bailarina














Filha minha, bailarina.
Gosto de tangerina
Acesa, quente, vivida lamparina
Ouro da mais profunda mina
No bailar da disciplina
Nunca máquina
Sempre menina
Suave como a neblina
Gueixa de mil mofinas
Alegre faina
Rainha de sua própria sina
Esta é minha filha, bailarina.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O infinito sem memória.


Analiso a maneira como o ser humano age e concluo, singelamente, que nosso movimento é tal qual a expansão dos vírus e dos vermes, que se alastram até destruir seu hospedeiro.
Nada de compaixão, nem piedade, então, não sei de onde surgiram estas palavras tão distantes do humano.
Compreender nossa natureza é fundamental para modificá-la, se é que isto é possível. Como posso pedir a uma árvore que não de frutos? ou ao mar que detenha seu movimento.
Como posso pedir ao humano que seja menos devastador, explorador, cruel, obsceno, e, que converta sua natureza em prol de si mesmo e conviva pacificamente com seu hospedeiro, a terra.
Alimentamos-nos de nosso hospedeiro e o adoecemos e ao final estaremos todos mortos e o infinito sem memória.

domingo, 4 de setembro de 2011

Mudança


Censura que intervém,
no vaivém do ser que fulgura!
Somos reféns da cobiça.
Assim, pacata, tenho medo!
Perturbações,
Suspiros,
Preciso reorganizar meu infinito.
Ilustrar vestígios de conceitos.
E tomar a decisão de não sentir dor.
Desnacionalizada sem culpa.
Apenas, território da ação.
Ação...
Paixão...
Bagatela de ilusão...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quando a "Classe Política' terá caráter, para salvar a saúde do povo brasileiro.

A presidenta Dilma chamou de demagogo, quem reclama da saúde pública.
Dizendo que antes deveriam falar de onde virá o dinheiro.
Ora, presidenta, o orçamento acaba de ser cortado, para manter dinheiro parado nas mãos de banqueiros.
Ora, presidenta, o imposto de renda não foi reajustado, para surrupiar o dinheiro do contribuinte.
Dinheiro para a saúde tem de sobra nos cofres da União e nas algibeiras da corrupção.
O que falta é respeito com o povo.
Não é da onde virá o dinheiro para a  saúde!
Mas sim, quando  a Classe Política terá caráter,  para salvar a saúde do povo brasileiro.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O problema é a forma que pensamos!


Bianca rememorou tudo que havia ouvido naquele dia. As palavras grosseiras, os gestos de ódio. Não entendia porque as aparências mexiam tanto com as pessoas. Ela ainda era a mesma menina que andava de bicicleta, mas bastou colocar um batom vermelho, um shortinho curto, salto alto e uma bolsa roubada de sua mãe, não precisou dizer palavras, para que os homens a devorassem com os olhos, como se pudessem despi-la de uma forma brutal e rude.  Sentia o rosto arder ao reviver as obscenidades que ouviu. Porém nenhuma dor foi maior do que quando sua mãe disse “Se você anda na rua como uma prostituta, quem vai te respeitar. Se você for violentada, o estuprador terá todo o direito, afinal você está procurando”. Bianca pensa “eu não sou só uma roupa, eu tenho sentimentos, tenho princípios.” Não entende porque na televisão tem tanta gente vestindo assim. Porque nos outdoors tem tanta foto de mulheres mostrando tudo, revistas, jornais, tudo é só mulher seminua! Até prá vender pasta de dente. Agora me dizem que assim elas podem ser violentadas. Será que elas querem ser violentadas e se vestem assim? Talvez elas já estejam sendo violentadas!! Pensou com horror Bianca. Mas afinal o que são os homens? Feras incapazes de conter seus desejos? Bianca acredita que sua mãe pensa que sim, mas ela já estudou os índios e sabe que mesmo despido ninguém agarra ninguém a força. Então de onde virá este comportamento? Bianca pensou por horas e de repente sentiu que sabia a resposta – “O problema é a forma que pensamos, não é minha roupa que está errada, é o pensamento do conjunto de todas as pessoas, que  vão reproduzindo coisas, sem perceber.” Bianca sorriu, subiu em sua bicicleta e foi para casa.

Essa é a minha participação na 19ª edição sentidos do Projeto Suas Palavras com o mote: O problema é a forma que pensamos

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A violência é vibrante


Observo...
A violência é vibrante.
Recheiam os noticiários, filmes...ofegantes.
Viajante com a dor alheia.
O quê importa?
Se o sangue é radiante!
E o homem é o lobo do próprio homem.
Já dizia Thomas Hobbes.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Redefiniremos o humano

Plaina o espírito de insanidade,
nos manuscritos da evolução humana.
Sem política os paleolíticos,
jaziam sem criticar.
No período Medieval, bestial nobreza e severo clero.
Espíritos famintos agonizaram.
Oceano de história, troianos, romanos, americanos...
Fratricidas.
Vidas retorcidas.
Resignação?
Inclinação, never again!
Habitamos a reorganização,
confirmação da implantação do novo.
Gritos, frêmitos, ritos de libertação.
As vozes se multiplicam.
Erudito, somos nós!
Inédito a falta de mito.
Olhamos o mundo on-line.
Não mais serranos,
Hoje, redefiniremos o humano.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Como posso acudir?

Se teus olhos não existem.
Quisera libertar-te da fria e escura caverna,
do negro casulo.
Quisera que um Deus ouvisse minhas súplicas,
e as de minha mãe também.
Quisera possuir magia,
para restaurar-te a alma.
Tu, cuja escravidão me oprime.
Teus olhos vendados.
Teus lábios a dizer mentiras.
O abandono dos teus dois filhos.
Quisera conhecer palavras...
Remédios...
Simpatias...
Que te devolvessem a vida,
os amigos,
a mulher,
o respeito dos que te amam.
Quisera que teu vício não fosse maior que o mundo.
O mesmo mundo que tu abandonaste.
Quisera, irmão, te ver sorrir novamente.
E em teu sorriso ver libertos todos os que te cercam.
Quisera não chorar.
Quisera não sangrar diante do presságio de teu corpo estendido, em um canto qualquer.
Quisera que teu amigo da droga te conhecesse.
Soubesse que um dia jogaste bola.
Foste o herói de tua filha
Quisera que não houvesse cocaína, maconha, crack...entre nós
Quisera...



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Nenhum deles soube do outro


16.02.1952 – Ramon se levantou, olhou seu rosto no espelho e uma sensação esquisita tomou conta de seu estomago, sabia que aquele não era seu rosto. Nunca foi tão velho, enrugado, narigudo, gordo, fedendo a gordura. Alguma coisa estava muito errada, tateou o corpo nu, limpou a garganta para ouvir sua voz e não se lembrava de nada. Avelhantado e sem memória, onde estaria?


16.02.1882 – Mariane espreguiçou lentamente, antes de abrir os olhos. Seu corpo jovem estava nu e cheio de néctar, olhou ao redor e reconheceu o cabaré onde trabalhava. “Sou a mais impetuosa das garotas” pensou e sorriu. Não tinha pudores, inibições, tudo era prazer e  deleite, levantou cantarolando.

16.02.1822 – Garcia acordou chorando, em seus seis anos de idade, apanhava dia sim, outro também e o pai sempre muito violento, bêbado. A mãe parece não se importar, esta sempre com o rosto transfigurado, não se move, arrasta-se.

16.02.1762 – Pablo olhou o teto de seu quarto, sentido toda a carga de sua escolha, não gostava de mulheres. O que podia fazer? Elas não lhe despertavam nada. Mesmo o mais perfeito dos sorrisos, decotes, flores, nada lhe encantava. Gostava de mulheres para conversar. Só.

16.02.1702 – Sofia acordou assustada, o sol estava alto e domingo ninguém perde a missa. Somente os hereges. Meu deus até colocar este vestido, melhor é ir sem anágua mesmo, ninguém notará e vou salvar o dia, pensou.

16.02. 1642 – Caroline sentiu uma pressão sobre o corpo e acordou. Deus era o marido! Pensou, a não lhe deixar em paz, bastava deitar na cama que lá vinha ele a lhe amofinar, com aquela coisa semi-mole, se esfregado por horas, até cair exalto. Pensando ser o rei dos reis, se ele soubesse do escravo Feijó, aquilo sim, era de morrer de susto, homem de verdade, de deixar a cocha bamba.

16.02. 1582 – Balaoba acorda com o balançar do navio, finalmente havia conseguido cochilar, acorrentado pelos calcanhares, doía-lhe tudo. A escuridão roubando o tempo, não sabia por quantos dias estava ali, nem o que lhe aguardava quando chegasse.

Ramon esteve só pela vida, Mariane viveu cada dia como se ele fosse o último, Garcia foi assassinado pelo pai, ninguém notou, Pablo casou-se e teve quatro filhas, Sofia queimou na fogueira, Caroline envelheceu com o marido e o escravo Feijó, Balaoba foi lançado ao mar. Nenhum deles soube do outro.

domingo, 31 de julho de 2011

Algo além dos Livros: Concurso de Microcontos de Humor

Algo além dos Livros: Concurso de Microcontos de Humor: "Oi, pessoal! Até dia 14 de agosto, dá tempo de se inscrever no Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba. Mais informações: http:/..."

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Estou prestes a terminar o livro “O mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder. Das 547 páginas, já devorei 430, com pequenas mordidinhas. Página a página, sem corre-corre, apenas querendo sentir o gostinho de um bom escritor. O tema é fascinante, pois nos insere no universo da filosofia, de forma lúdica e prazerosa.
Confesso que sempre amei filosofia! Gosto de ler, tal qual uma criança aprecia ouvir estórias, canções e tantos agrados que a vida nos dá.
Neste ponto em que estou, no livro, surgiu à pergunta – Qual o espírito do nosso tempo? Fiquei petrificada, pois por mais que eu pense a única coisa que me passa pela cabeça é que vivemos em um tempo de espera. Como se todos nós assistíssemos a um longo filme e encantados com a imagem permanecessem no mundo da fantasia. Longe das práticas revolucionárias, dos desejos de mudança, do frenesi pelo novo.
Gostaria que você me ajudasse a pensar? Qual o espírito do nosso tempo?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Negro buraco

Será?
Buraco negro, negro caco.
No centro da Via Láctea.
Será que já sabia?
Adentrar o medo.
Negro buraco, estilhaço.
Será que já sabia?
Alvitre do aniquilamento.
Mesclando a vida, sacudindo-a.
Será que já sabia?
Que aspiro ao sol.
Flamejando, resplandecente no meu horizonte.
Um além, negro.
Outro próximo, fulgor.
Bem e mal orbitando em mim.
Será que já sabia?
De tuas energias, brincando... Brincando de me confundir.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

PAUSA


Que bom ter uma pausa
pequena que seja para não pensar
curtir as férias
curtir os amigos
seguir curtindo  e em breve retornar
feliz.
Beijos a todos.

sábado, 9 de julho de 2011

IMPONDERÁVEL

Allingham comemora seus 113 anos
Uma noite, um velho de olhar vesgo, de mãos calejadas, sem dentes, com muitas dores, voltou seus olhos para o céu e não compreendeu tantas estrelas abastecendo o vazio. Não se espantou, pois sempre abarcou pouco. Nunca entendeu a barbárie, nem quem a pratica.
A pequenez humana.
A escravidão engrandecida.
Concorrendo e sustentando a estupidez.
Não compreendeu o inalterável.
Nem a cultura que o justifica.
Contradizendo a razão.
Nunca entendeu as pessoas, nem a loucura que as domina.
Esteve sempre só.
Olhava as crianças brincando ao longe.
Nunca foi uma delas.
Anoiteceu cedo.
Seu espírito vibrou em freqüência distinta.
Cheio de aflição pelo imponderável.
A dor da solidão.
Indo e vindo no imaginário dos sonhos.
E agora, desapareceu a linha da espantosa percepção.
O velho sorri.

domingo, 3 de julho de 2011


Vamos marchar!

Observo arrebatada.
A marcha das vadias.
Mulheres querendo falar!
Antes não podia...
Será?

Vamos marchar!
Observo absorta.
A marcha da maconha.
Pessoas querendo legalizar.
O ato de se drogar.
Antes não podia...
Será?

Vamos marchar!
Observo apaziguada.
A marcha para Jesus.
Cristãos invadindo ruas.
Querendo articular.
Antes não podia?
Será?

sexta-feira, 24 de junho de 2011


CRIANÇAS TRABALHANDO!

O sol queimou-me.
Tão devagarzinho...
Dia sim, outro também.
As mãos tarimbadas.
Tão devagarzinho...
Dia sim, outro também.
A idade pouca, as tarefas opulentas
Dia sim, outro também.
Abdiquei da escola.
Antes do B – A, BA.
Só durei por ganha-pão.
Dia sim, outro também.
Dinheiro escasso, dores abastadas.
Arroz e feijão.
Dia sim, outro também.

terça-feira, 21 de junho de 2011

ÉPSILON

Diante da TV, Sofia Pensa: Como é plausível que tantas coisas caibam dentro de algo tão pequeno? Sentada, quieta, com os olhos levemente fixos no horizonte. Submersa na idéia de que o ser humano inventa tantas coisas para se esquecer de que é um épsilon. Não somos Deuses, muito menos seus filhos. Somos uma centelha de esperança solta ao vento, nada nos distingue do resto do que existe, mas possuímos a coragem de acreditar que o pensamento nos torna superior. Descartes, o filósofo dizia “Penso, logo existo”. Não podemos negar que existimos, mas podemos pensar que o fato de sermos não nos torna melhores ou piores que as estrelas do céu. Podemos ficar felizes em ter ido à lua, em ter arquitetado a internet, os prédios, os carros e tudo mais, contudo o que realizamos não nos fez compreender quem somos, nem respondeu a pergunta: Será que o mundo é grande ou nós somos acanhados demais?

domingo, 19 de junho de 2011

Revelação: Já vivi tanto...

Revelação: Já vivi tanto...: "Já vivi tanto que todos estes anos me parecem uma eternidade. Já hoje, quando me olhei, não me reconheci. Estou consideravelmente bem mais ..." Somos assim, nunca os mesmos, sempre transmudados, mas deve ser por isso a crença na alma, parece que mesmo na mudança existe ao que permanece. parabéns. BELO texto.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Escravo de nevoeiros!


Anjo... Onde estão tuas feridas?

Príncipe das trevas... Onde está tua verdade?
Mulher...
Homem...
Faceta de uma mesma moeda.
Arrisco inventar que tua existência não é precária.
Ela não é unicamente o que apreendi.
Nestes milênios que te conheço.
Oh! insustentável disparidade! Do quê tu falas?
Discursos de um mundo que não é teu!
Por que a fé em teus olhos?
Agonizante... Escravo de nevoeiros!


sábado, 11 de junho de 2011

Catadora de cabelo!

“Ah”! Pretensão de voltar
Ao tempo do alvorecer,
Dos sonhos de minha meninice
Dos anos em que só corria!
Alegria, vigor, que sonhos,
Naqueles tempos fugazes,
À sombra das jabuticabeiras..”

Meu avô era abundantemente vaidoso. Gostava dos cabelos cortados a cada quinze dias, nada de tesoura, apreciava a navalha.
Sempre vinha o barbeiro, velho e magricela, com a feição própria das aves esfomeadas do sertão nordestino. Ficava por horas e horas a conversar, falava de um tudo, das brigas de vizinhos, das moças que se perderam, dos rapazes a aprontar e, sobretudo de política, que sempre foi a paixão de meu avô.
Enquanto sua voz esganiçada se projetava além dos muros de nossa casa, os cabelos fragmentavam-se, deslizando serenamente para o chão. Cabelos graúdos, másculos, alguns fios brancos a misturar-se no negro ébano.
Aos meus olhos tudo parecia encantador. Ficava sentada bem perto, observando. Havia uma força emanando daquele pequeno espaço, a sombra do cajueiro, força na expressão do olhar de meu avô. Nos gestos submissos do barbeiro, na sua maneira de projetar-se para baixo, formando uma corcunda muito próxima de uma reverencia. Um príncipe sendo galardoado. Um rei recebendo os cuidados de um servo.
O barbeiro dizia “Senhor Antônio este país precisa de homens como o senhor, abarrotado de sabedoria para governar”.
Meu avô balançava a cabeça como a dizer “Deixa... deixa.”. Mas seu semblante transmudava em felicidade, harmonizado com aquelas palavras, recordando os tempos em que participava ativamente da política.
Gostava por demais de passeata, sentia um arrepio quando o hino nacional se fazia ouvir. A multidão aquecia seu coração.
Os políticos vinham de longe conversar com ele. Queria sua opinião, convidar pra comício, festança de inauguração, batizados de apadrinhados, e assim se ia ao longe.
Meu avô andava léguas para ouvir um político falar, sentia que algo estava acontecendo, que a roda da vida se movia. Gostava dos discursos inflamados. Palavras de luta por dias melhores, igualdade de condições, direitos trabalhistas... direitos humanos e tudo que conduzisse o homem a sua dignidade.
Gostava muito de Getulio Vargas, nunca negou.
Eu fico a pequena distância, esqueço o pé de jabuticaba, deslembro das brincadeiras de roda, pois, assim que termina o corte, meu avô grita meu nome e como em um ritual diz “menina, sepulte estes cabelos no pé da bananeira.”
Eu tenho seis anos e nunca deixei cair nenhum fio.
Corro feliz a juntar a rica penugem de meu avô, amo alisá-los por entre os dedos, observar como são escuros, lustrosos, lisos, grossos.
Tomo muito cuidado, conhecedora da importância de minha tarefa, afinal desde o primeiro dia em que exerci minha função de catadora de cabelo ... Lembro que vovô pediu que me sentasse.
A sala parecia enorme e os móveis agigantaram.
Sentada no sofá, fiquei pacífica, mal respirava, imaginando que seria castigada a qualquer momento, (que travessura teria feito?), procurava pelos corredores de minha consciência infantil, mas nada, nenhuma pista, por fim desisti. Já não me lembrava mais.
Vovô com sua expressão grave, os braços nas costas e o corpo ereto, mesmo em sua cadeira de rodas, ainda sem as duas pernas, era um colosso. Olhou-me demoradamente.
Eu estava a ponto de chorar, quando finalmente ele amainou, parecendo manteiga derretendo em panela quente, e me confidenciou a importância de se enterrar os cabelos no pé da bananeira.
Contou-me em detalhes que os cabelos estão vivos, são partes de nós e mesmo cortados continuam vivos e a comunicar-se com os seus irmãos, que bravamente resistem no alto de nossas cabeças.
Assim, se jogarmos os cabelos cortados no lixo, eles ficarão aborrecidos e com certeza se queixarão com os cabelos-sobreviventes, logo haveria uma revolta completa e irrestrita.
São unidos os cabelos.
Meu avô dizia “Pense, cabelos que serviram tão bem, que não deixaram que o sol escaldante queimasse a pele da cabeça, que embelezou, que nos acompanhou por toda a vida, que nada pediu. Como podemos maltratá-los?.”
Meu avô gostava de seus cabelos lisos e felizes. Eu gostava de enterrá-los.




O malfazejo é não lutar!

Perto dali. Maria José conversa longamente com Efigênia e Isabel.

- É sina de mulher, se conforma!
- Ora Zezé – era assim que Efigênia chamava Maria José – seu marido é um louco e quer levar todos para sua canoa furada. Ontem mesmo, quando vinha da feira ouvi risinho a dizer “Lá vai os garimpeiros”. Tenho vontade de morrer.
- Efigênia tem razão – disse Isabel – não tem um dia que eu não choro. Não durmo mais na mesma cama que Nonato. Ele parece de pedra. Fica lá me olhando... Me olhando...tenho vontade de bater nele até sair sangue.
- Acontece que eles vão de qualquer jeito. Agora, vocês podem escolher.
- Como se fosse fácil – Efigênia.
- Gostar, eu não gosto, mas às vezes penso, que se meus pais não tivessem vindo para cá, talvez eu nem estivesse viva.
- Ora, não diga isto! – falou Isabel
- É a verdade. Era uma seca, uma falta do que comer, do que fazer. Lembro de ficar horas observando o tempo a ondula diante de mim. Aquilo não era vida! Agora temos casa, comida e para Amariano falta alguma coisa.
- Falta cabeça – gritou Efigênia
- Dignidade. Pensa que não sei. Eu também sinto este cheiro que emana de mim, um gosto de coisa estragada. Não sou mulher de duas caras, tenho vontade de vestido novo, sapato, perfume, bife bom na mesa. Não é vergonha desejar o melhor. O malfazejo é não lutar.
Retornaram ao trançado cada qual com seu pensamento, porém alguma coisa havia mudado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

ANTÔNIO

Ainda pequeno Antônio já dominava o vocabulário Barra-Cordinês.
- Rana – era assim que Antônio, com seus dois anos e meios chamava Raimunda.
- Hum-Hum
- Dá batelão.
- Não intica!
- Só bocadinho.
- Dou-lhe um broque!
A verdade é que Raimunda nunca bateu em Antônio, dizia para mantê-lo quieto, sabia que Amariano, seu pai, era severo demais e naquela época Antônio seu único filho homem, o orgulho da família. Escolheu o nome para o menino não por causa de Santo Antônio, nada a desmerecer o santo, muito pelo contrário, era devoto, fervoroso e fiel, um verdadeiro católico apostólico romano, negar jamais, porém o desejo pelo nome surgiu em uma conversa...
Amariano gostava de aprender, tinha o prazer dos viciados, caminhava léguas por um bom-papo, não media esforços quando o assunto era o debate sadio de idéias, gostava de argumentar, encontrar soluções, falar de política, ouvir histórias de outras épocas.
Foi assim que descobriu o brasão de sua família, sentia orgulho em mostrá-lo, tanto que mandou bordá-lo no bolso de suas camisas, ficava bonito de se ver.
Trazia sempre junto ao peito uma folha amarelada pelo tempo onde continha a origem da família Oliveira, enchia a boca para contar que o sobrenome é de origem toponímica, morreu sem saber o que era “to-po-ní-mi-ca”, mas sentia um orgulho sem tamanho.
Amariano conhecia também seu segundo sobrenome “Fernandes” que tem seus primeiros registros na Castilla, uma comunidade autônoma espanhola situada na região Sul península Ibérica. É um sobrenome chamado "patronímico" ou seja, derivado de um nome próprio, no caso Hernando que por sua vez resultou em Fernando e finalmente em Fernandes. O sobrenome é originário dos tempos visigóticos (do século III ao século VI D.C.). Algumas variantes são Fernández, Ferranz, Fernandeiz, Fredinandoz entre várias outras.
Amariano ao conhecer alguém tacava logo as informações de seu nome e queria saber do desafortunado tudo o que pudesse arrancar.
O nome, dizia Amariano, acompanha a pessoa por toda a vida, nunca muda, assim quando nasceu seu filho macho, esperou, esperou, esperou até que um dia de lua cheia, com os vaga-lumes a brincar pela noite, as crianças correndo em seu eterno pique-esconde, a mulher a fazer bolo, pensamento a perder de vista.
Na entrada da frente do casebre três bancos, grandes e robustos. Amariano sentado. Pensamentos a viajar, ora pelos bancos, gostava do numero três, porque assim era a trindade, pai, filho e espírito, por isto construiu três bancos grandes para que os amigos pudessem achegar-se. “Construir coisas é tão bom” Sorria Amariano. Ora sua cabeça fervilhava preocupado com o nome do menino, afinal sua mulher perdeu três, antes deste vingar e se... “Deus me ilumine”, morrer pagão.
Observa o levantar da poeira, o vento a beijar sua face, provocando a alma. Sente um desejo de chorar e rir, dominado por uma alegria, satisfação de saber-se vivo.
Gosta de olhar o mundo e ainda mais de agradecer a Deus, sorri com uma estranha sensação de deslumbramento. Sorria calado, rosto fechado, não queria que ninguém soubesse da emoção que pequenas coisas despertava em sua alma, muito menos do profundo amor...
Foi neste dia que imaginou como seria viver em outra terra, conhecer o mundo. Tantas possibilidades.
Sentia ao mesmo tempo ódio da falta de recursos e culpa por não conseguir ganhar mais dinheiro, por mais que trabalhasse, por tudo que fazia o dinheiro só dava para comer...
- Boas noites, como vai compadre – era Jovito, homem letrado e feio de dá dó.
- Indo como Deus manda, pensava aqui comigo que meu filho já fez semanas e ainda não achei o nome, sem contar que preciso batiza.
- Nome é o que de mais importante existe, veja só, ontem mesmo estudando em um livro encontrei isto.
- O que é?
- Diz aqui: Antão, Antônio; Significa o que está na vanguarda e indica uma pessoa de força interior e fé inabalável nos seus próprios ideais. Isto lhe permite estar sempre à frente, abrindo caminhos que geralmente levam a resultados positivos para todos.
- Vala-me Deus!!!
- O que foi?
- Parece que o amigo adivinhou, eu agorinha mesmo pensava em sair pelo mundo, deitar cabelo, conhecer outras paragens e este nome...
- O que tem o nome?
- Ah de me dá sorte.
A noite corria longe quando o assunto terminou.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Eu nasci imortal




Penso e sou mulher.
Difícil, mas insisto.
Como apreender a existência neste estilhaço de tempo?
Eu nasci imortal.
Meu coração alforriado.
Minhas ações desordenadas, revolucionárias, apaixonadas...
Sem conhecer limites.
Alheia a restrição espacial.
Só tive medo do tempo.
Senhor implacável.
Minuto após minuto.
A cada pequena perda.
Suprimindo...
Jugulando...
Dilacerando a alma.
A imortalidade empalideceu.
E observo a morte.
Vejo-a galopar freneticamente.
Sorrio, pois posso deté-la.
Eu armazenada em uma folha de papel.
Bem guardada poderei percorrer séculos, ludibriando o efêmero.
Mesmo em um opúsculo que nunca será lido.
Um folhetim resguardando pequenos fragmentos de manha e deleite.
Venci.

domingo, 29 de maio de 2011

Maria de Jesus inundada de vida.

Brotou Maria, mas não idêntica a tantas.


Era Maria de Jesus inundada de vida.

Recebeu agulha e linha.

Cerziu linho, chitas, gabardines e foi costurando a vida.

Sem nenhum luxo.

Cheia de filhos.

Por vezes sem ter o que comer.

Outras colhendo a ajuda alheia.

Maria cresceu com anseios.

Queria o Mar...

Os rios...

Cidades distantes.

Mas Maria apareceu mulher em um sertão remoto

Pouco soube da leitura e da escrita.

Aos quinze casou-se com um varão, 20 anos mais velho.

Aos dezesseis achou que iria morrer.

Dando à luz ao primeiro, dos oitos filhos que teria.

Teve medo de onça!

Sentiu frio na cama vazia.

Sentiu raiva...

Sentiu tantas coisas calada.

Que se tornou Maria igual a tantas.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Opiniões dilaceradas pela estupidez

Hidrobike! Uma bicicleta parada no fundo de uma piscina com alguém pedalando loucamente, Gertrudes sorriu levemente entre uma fungada e outra pensando acerca de si mesma.  Observou, a sua frente, uma  piscina olímpica, nela  pessoas nadando de um lado para o outro como peixes no aquário, adiante um pedaço de céu, algumas árvores entrecortadas e  um som ensurdecedor, que  conservava suas pernas em atividade. Era como um chicote estalado no ar, uma ordem para seguir (Para onde!). Por mais que ela pedalasse não saia do lugar, por mais que fizesse força a única coisa que conseguia era continuar vendo as mesmas coisas. Sentiu uma profunda  certeza, de que foi assim sua vida inteira.  Querendo ver além da aparência do mundo, lutando por descobrir a razão das coisas, mas tudo se resumiu a nada, porque sua inteligência não é capaz de compreender o todo. Sua consciência observar coisas entrecortadas, opiniões dilaceradas pela estupidez, fragmentos de muitas idéias truncadas, de pessoas que estiveram pedalando sem sair do lugar e imaginando coisas das quais nada sabem. Ouvindo a balbúrdia das vozes que os obrigam a continuar pedalando...

sábado, 30 de abril de 2011

A cobiça desvelou-se em pequenas gotas de suor.

Bianca sentiu sua essência pulsar.

A cobiça desvelou-se em pequenas gotas de suor.

O sangue galopando nas veias.

O peito ziguezagueando mais do que corcel em dia de doma.

Estava próxima da hora em que sentiria o prazer mais intenso da semana.

Tudo que ela queria era se desvencilhar dos compromissos, das amarras do cotidiano e se lança como fera no objeto de seu desejo.

Os pés acelerados na urgência dos amantes e então galgou as escadarias que a separava do que mais queria.

Sentiu um suave perfume de eucalipto e sua boca salivou.

Penetrou no recinto, jogou a bolsa em um canto qualquer

Despiu-se, não de todo, deixou a roupa de banho.

Sentia sede, mas não ousou se demorar mais.

Caminhou com passos firmes de um guerreiro que mesmo no prenúncio da morte não se entrega.

A porta de vidro disfarçava a visão, vacilou, mesmo desejando abri-la imediatamente.

Tomou uma ducha, antes.

Deixou que a água fria limpasse o seu dia e só então higienizada dos pensamentos, das angústias, dos anseios e da podridão da humanidade abriu a porta.

Sentiu o calor intenso de 43 graus e sentou-se no mármore.

Sorriu candidamente, pois nunca houve amante melhor que uma sauna.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Na penumbra de minha estupidez

Almejo os teus olhos!


Na penumbra de minha estupidez.

O que eles dizem?

Jugula minha insegurança.

Doutrina minha alma!

Pois, nunca conheci de mim.

Só sei o que me dizem.

Ou pressinto nos teus olhos

Quisera compreender o eco da caverna, para chocar a solidão de minha ignorância.

Sem ti. Não sou!

Anseio escrever, mas porquê!

Se são teus olhos!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

SQUASH




Os gregos em sua infinita sabedoria diriam “ O corpo precisa de exercício como a alma precisa de sabedoria”, descobri esta verdade jogando squash, um esporte que além do prazer , proporciona interação.

domingo, 27 de março de 2011

Os olhos de Deus

Imagino a terra solta no espaço, rodando em torno do sol. Galáxias intermináveis. Buracos negros absolvendo tudo a sua volta, sem nenhum sinal de para onde estão indo todas as coisas engolidas e então alguém diz “Somos insignificantes”.


Que consciência seria capaz de abarcar o infinito, compreender a dimensão do inatingível e mesmo assim seguir a diante, criando, descobrindo, explorando e desejando sempre a imortalidade.

Um ser assim jamais pode ser chamado de insignificante, muito pelo contrário - O humano faz seu significado, atribuindo concretude onde só existe fruição. Tornando-se aquele que dá significado ao todo. Os olhos de Deus.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Somos o único animal a ser deixado nu sobre a terra nua

Michel Eyquem de Montaigne foi um pensador sobre o Humano e afirmou somos o único animal a ser deixado nu sobre a terra nua, atado, cerceado, não tendo com o que se armar e cobrir exceto com os despojos de outrem.


Perdura este pensamento, onde somos eternos exploradores, usurpadores, molestadores e infames contra tudo a nossa volta.

Retirando de outrem sem lhe perdir permissão, assim somente a resistência de quem é usurpado é capaz de deter o usurpador.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sou mulher, assim posso fritar peixe para meu marido, enquanto escrevo.

Sou mulher, assim posso fritar peixe para meu marido, enquanto escrevo.

Relembro minha mãe que sempre dizia "Não confio em mulher". Para ela e toda a humanidade foram os homens que sempre fizeram tudo.

Só gostaria de saber como "eles" fariam se tivessem que fritar peixe enquanto criavam, inventavam e descobriam coisas.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OS MOVIMENTOS DO AMOR

No livro O Banquete, de Platão, diversas figuras da sociedade ateniense estão reunidas discutindo a natureza, o sentido e as implicações do amor. Elas fazem várias descrições de amor, todas unilaterais, embora não falsas. Uma das pessoas disse que o amor nos faz adotar atitudes nobres para sermos merecedores do amado. Outra afirmou que o amor é uma espécie de frenesi e loucura, e outros, como Aristófanes, classificou-no como a busca da nossa outra metade.




Segundo Platão, Aristófanes disse que todas as pessoas têm corpos duplos e dupla face. Haveria três tipos de humanos no mundo. Na figura homem/homem, o corpo todo era formado por figuras masculinas. Um outro tipo seria composto por elementos femininos, e por último haveria o masculino/feminino.



Uma figura andrógina, com uma metade feminina e outra masculina. Trata-se, na verdade, de uma fábula, um mito encantador, destinado a revelar um ponto muito profundo. Segundo Aristófanes, esses seres duplos cometeram transgressões contra os deuses; como castigo, foram divididos ao meio. Sob essa perspectiva, o amor é literalmente a busca da outra metade.



Essa fábula tem implicações muito abrangentes em termos da metafísica e da ética de Platão. É um outro modo de afirmar que não somos seres completos, e que os movimentos do amor são uma busca de complemento.

Quando você está apaixonado, é como se o universo estivesse concentrado na outra pessoa. Isso não é necessariamente falso. Platão diz que, em certo sentido, o universo realmente está nessa pessoa. Você só precisa transformar essa dimensão e ver não apenas a pessoa, mas o universo nela.



Amor e beleza estão ligados. Você vê beleza quando está amando. À medida que progride, você sente por todas as formas belas a espécie de exaltação que experimentou quando se apaixonou pela primeira vez. Quando permite que o amor o leve para a frente, você sai do particular em direção ao múltiplo.



Em seguida, você vê que a beleza da mente é mais maravilhosa que a beleza da forma. Platão afirma que você se apaixona pela qualidade da mente de uma pessoa mesmo que sua forma física não seja tão graciosa. Essa é uma progressão do concreto para o imaterial, sob a influência e inspiração do amor.



Para Platão o amor é um princípio cósmico.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cada partícula sendo invadida por sensações e impressões do infinito

Os sentidos que possuímos são captadores de sensações.


Visão, audição, olfato, tato, enfim toda e qualquer partícula existente em nós formam um conjunto sistêmico interagindo e descodificando impressões do mundo. Mas não sentimos tudo ao mesmo tempo, pois haveria tantas informações que enlouqueceríamos. Então focamos nossa atenção em um ponto e desfocamos o resto, para que a nossa cognição possa ser capaz de entender os sinais captados.

Não são as coisas que não existem, somos nós que não a priorizamos. Priorizar não significa acrescentar valor ao objeto observado, mas sim captar algo que para o observador naquele momento era o mais importante.

Existem pessoas que são capazes de observar muitos objetos ao mesmo tempo, mas nem sempre são capazes de juntá-los e outras pessoas que diante da imensidão do todo e de tudo que existe no mundo são aptos a abarcar todas as impressões do mundo, onde mente e percepção condensa as informações e quando não é mais capaz de suportá-las ocorre o grande Big Bang. São mentes que precisam falar do mundo.

Cada partícula sendo invadida por sensações e impressões do infinito. Então é preciso ficar bem quieto e deixar que as sensações sejam captadas. É como o obturador da máquina fotográfica, quando existe muita luz o obturador precisa ser mais lento para captar a imagem. O click rápido só capta borrões.

Existem no mundo muitas pessoas captando Borrões e vendendo como uma fotografia boa, real e verdadeira, mas a imagem precisa de tempo e às vezes toda uma vida para ser sintetizada.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O silêncio

Minha percepção acovarda-se diante do árduo trabalho de separar para compreender, pois como dizia o filósofo Descartes  “Dividir a dificuldade em tantas partes quantas necessárias para melhor as resolver”. Sei que este método é bom, mas minha alma é rude, estabanada, atordoada diante das vozes que escuto e tenho que compreender e escolher qual dentre elas assemelha-se  a verdade.
Viver em sociedade é escutar vozes, muitas vezes insanas e barulhetas.