quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Não há comunicação sem troca

Não há comunicação sem troca, mas o entendimento da palavra “troca” é de compartilhamento, fazer parte de algo com alguém, em outras palavras não é necessariamente a forma binária de reciprocidade, mas sim, uma reciprocidade reticular. Essa ideia encontra respaldo nas pesquisas de Lévi-Strauss referente à casamento entre tribos:

"Tal forma geral de reciprocidade tinha permanecido oculta, porque os parceiros não dão uns aos outros (e não recebem uns dos outros): não se recebe daquele a quem se dá e não se dá àquele de quem se recebe. Cada qual dá a um parceiro e recebe de outro, no interior de um ciclo de reciprocidade que opera num único sentido, a convivência, o vínculo estabelecido. (1978, p. 72)


LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. (trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires). Rio de Janeiro: Tempo Brasil ejrk. 1978

domingo, 27 de novembro de 2016

Diálogo estranho






- Qual é o tempo?

- Tempo?

- Sim, o tempo em que está?

- Não sei, não entendo do tempo.

- Ora, é o que você está vivendo.

- Não posso entender por que não estou nem no passado de minha existência, nem no presente, pois no instante em que abro a boca para falar, já se passou, não há mais nada, somente sons no espaço se propagando.

- Mas e o mundo a sua volta, não consegue captar?

- São sinais demais...

- Como assim?

- Sendo eu finito, pequeno, precário como posso compreender o infinito, imenso, complexo...

- Alguma coisa você deve entender...

- O quê?

(Silêncio)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Expandir o insustentável brilho do ser



A lua estava enorme no céu!
Na terra pequenos pedaços de estrelas tentando capturar a alma da lua.
Congela o tempo num chip qualquer

A lua se agigantou!
transmudando-se em novas perspectivas.
Outra lua mais brilhante adentrou o jardim

Se a lua pode ser outra -  pensou a florescer o  jasmim
Se há lua em mim, em pequenos fragmentos...
então, chegará o dia de obnubilar os olhos...
ampliar...
expandir o insustentável brilho do ser.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

#todoscontraPEC241


               A potencialidade do Brasil está em perigo com a PEC 241.  Aristóteles, filósofo da Grécia antiga ponderava que tudo que há no mundo possui uma potencialidade. A semente tem a possibilidade de se tornar uma árvore, a criança de ser um adulto, uma nação de suprir as necessidades de seus cidadãos, mas é apenas potencialidade, quando algo interfere a semente poderá não germinar.
               Alguns discursos recentes tecem um cenário nebuloso e de difícil solução econômica para o Brasil. As premissas dos argumentos são para concluir que somente limitando por 20 anos as despesas com serviços públicos nas áreas de saúde, segurança, previdência social e educação haverá condições para resolver a situação.
               Ora, o Japão pós-guerra estava muito pior do que o Brasil e não limitou gastos com a educação, nem diminuiu investimentos para o domínio de novas tecnologias, que necessita de pesquisas dentro das universidades; investiu na produção voltada à exportação e eficiência, ou seja, ao contrário do raciocínio débil do governo brasileiro com a PEC 241, os japoneses souberam pesar o que tinha valor para o seu futuro e hoje colhe os frutos de um caminho conhecido e acertado.
               Economistas apontam outras soluções para superar o desequilíbrio fiscal, tais como, melhorar a transparência e qualidade do gasto público; revisar a estrutura tributária tornando-a progressiva; taxar os lucros e dividendos; combater a sonegação e a recuperação da receita pela retomada do crescimento econômico, através do investimento público fiscalizado e das parcerias privadas.
               O cerne da questão é: que tipo de “sociedade” será o Brasil daqui a 20 anos com a PEC 241? Como será possível criar uma ordem social que permita uma melhor harmonização entre as necessidades e inclinações do mercado econômico e as prioridades básicas dos cidadãos?
               Os indivíduos trabalham cooperativamente pela manutenção e eficiência do todo social. Desse modo, se grande parte laboram por que o desenvolvimento da sociedade ocorre de maneira a que apenas alguns sejam privilegiados. Nesse país, as práticas sociais de corrupção estão obscurecendo a capacidade dos governantes de pensar acertadamente sobre o futuro da nação, bem como, na importância do bem-estar social.
               Enfim, nesse texto, pode-se pensar que se a PEC 241 for aprovada será uma ação coletiva planejada por todos nós juntos? Ela só existirá porque há um grande número de pessoas que pensando racionalmente concluíram que o futuro se encontra no esquecimento de nossa potencialidade para o crescimento sustentável.
              

Elizabeth Venâncio
Filósofa, mestranda em comunicação - UFG

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O tempo do aprendizado


No mundo vivemos cada um no seu quadrado
Na vida pulamos sem sair do lugar
Nenhum sentimento descreve nossa inutilidade 
Somente o tempo é capaz de desvelar o que há de diferente
O tempo faz a diferença
Se o tempo fosse meu escravo pedia para ele ficar bem quietinho
Somente para observar
Se o tempo fosse meu escravo eu acordaria bem devagarinho
sem os sustos que o tempo dá
Se o tempo parasse de me ensinar

Eu sorriria 

sábado, 1 de outubro de 2016

Resenha crítica - CORREIA, João Carlos. Netativismo e indignação na esfera pública. Revista Mídia e Cotidiano.v.9 n.9 Agosto/2016 Rio de Janeiro: PPGMC/UFF, 2016.



                                                                                  Elizabeth de Lima Venâncio[1]

            O ponto chave do texto em referência parece ser a percepção de que ocorreu uma mudança estrutural na noção de esfera pública a partir da aparição do conceito de  sociedade em rede. A questão que se coloca é: de que modo às práticas e discursos envolvidos nas redes sociais desencadeiam novas configurações na participação dentro dos espaços públicos. Para desvelar essa questão o pesquisador irá fazer uma análise dos movimentos portugueses anti-austeridade.
            Segundo o autor, o modelo unitário de esfera pública foi sendo progressivamente abandonado para, em seu lugar, se erguer a atenção a uma rede heterogênea de públicos que podem inclusive repensar, renegociar e reconsiderar questões controversas, geralmente excluídas da agenda, desenvolvendo uma especial sensibilidade para temas progressivamente abandonado para, em seu lugar, se erguer a atenção a uma rede heterogênea de públicos, geralmente excluídas da agenda, desenvolvendo uma especial sensibilidade para temas que ficam confinados à periferia da sociedade civil.
            Se por um lado, Correia diz que a análise da configuração epistemológica dos debates públicos fez com que o conceito de espaço público estivesse sujeito a intenso reexame desde a sua formulação clássica por Jurgen Habermas. Momento em que a esfera pública foi apresentada por Habermas como um espaço de liberdade, onde os seus participantes se reconhecem como livres e iguais, demonstrando a racionalidade dialógica gerada na discussão das pessoas privadas reunidas num público. Nas formulações posteriores, a esfera pública materializou-se numa rede de sensores localizados no interior da sociedade, sensíveis às pressões dos problemas coletivos e, também, como uma caixa-de-ressonância que amplifica a pressão dos problemas, tematizando-os e dramatizando-os de modo a serem assumidos e considerados por aqueles que tomam as decisões.
            Por outro lado, o texto ressalta o lado negativo da participação de audiências que na visão do autor não significou necessariamente um aumento da qualidade da cidadania já que também aumentaram as possibilidades de as pessoas depreciarem pontos de vista alternativos. As redes sociais, com suas causas e grupos temáticos, seriam responsáveis por ambientes fragmentados, com impacto negativo sobre o diálogo racional.
Apesar da contradição apresentada, Correia reafirma ao longo de sua argumentação que as novas tecnologias facilitaram o envolvimento dos cidadãos na observação e interpretação dos acontecimentos e que é preciso além de entender o conceito de público, também compreender o conceito de multidão, pois tais conceitos desempenham um papel interessante, para se referir a uma realidade multifacetada, contraditória e dotada de capacidade de inovação criativa.
            Conforme Correia, os resultados de seus estudos dos movimentos portugueses anti-austeridade enunciaram as mesmas características comuns: um discurso centrado na denúncia do sistema econômico e na captura das instituições e agentes políticos pelo poder financeiro; a exigência de “mais” ou de uma “verdadeira” democracia; a juventude catalisadora de lutas sociais mais amplas; uma certa recusa da delegação e um ceticismo mais ou menos ressentido em relação à ação institucional; a produção de novas referências plásticas e estéticas; a ocupação transgressiva do espaço público; a valorização da diversidade de expressão nos protestos de rua; o uso intensivo das redes sociais; a importância da cultura audiovisual e das novas tecnologias de informação e comunicação; a busca de formas tendencialmente horizontais de organização.
            Os movimentos trouxeram traços completamente distintivos em relação a elementos fundamentais da caracterização clássica da esfera pública como a fragmentação e o papel atribuído à racionalidade estético-expressiva. Verificou-se o uso de léxicos e recursos simbólicos com configurações marcadas pela atenção à linguagem icônica, aos elementos multimidiáticos e ao uso da ironia.
            Existe, segundo Correia, na comunicação reticular uma dificuldade de partilha de memória que permitam a formação de um background comum de trocas de aprendizagem.  É nesta linha que parece ser mais produtivo contextualizar e compreender ações e protestos, levadas a efeito de uma forma ritualista detonando uma nova gramática das identidades políticas. Simplesmente, as suas agendas parecem muito mais centradas na discussão das políticas e não da política não se mostrando particularmente atraídos por propostas utópicas de transformação social total, no sentido que era conferido pelas grandes narrativas da modernidade.
            O texto foi apresentado de forma estruturada e nos conduziu a perceber a complexidade da questão de como se dá a participação da audiência na esfera pública por meio da comunicação reticular.
            Diante dos argumentos, a conclusão do autor de que não houve um aumento da qualidade da cidadania só se justifica no cenário da sua pesquisa. Afinal, se for utilizado como base de análise a Primavera Árabe pode-se afirmar que a participação popular em grandes manifestações em decorrência do acesso maior as tecnologias da comunicação promoveram mudanças significativas, tais como a queda de ditadores.
            No entanto, dizer que a qualidade da cidadania não aumentou remete ao fato de que a transformação ou reestruturação da dinâmica de interação entre as pessoas não significa, necessariamente, melhoria das relações que promovem a cidadania.
            Muda-se a forma de participação, mas permanecem os entraves das circulações simbólicas de sentidos. Abre-se nesse texto, um parêntese para dizer que: compreender como se dá essa circulação de sentidos na internet configura o objetivo da pesquisa que se encontra em andamento de minha autoria. Pretende-se verificar o especificamente comunicacional que habita o cenário da intolerância religiosa e por que em pleno século XXI ainda persiste práticas de negação de direitos inerentes à cidadania, já pacificados na legislação.
            Nos últimos anos tem-se observado o crescimento de denúncias de intolerância Religiosa no Brasil. O Disque 100, principal canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos para registro de denúncias, contabilizou no ano de 2015 um total de 556 denúncias, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. No ano de 2011, quando o serviço começou a registrar denúncias de discriminação por religião, foram contabilizadas 15 denúncias, já em 2015 esse número passou para 556 casos, ou seja, um aumento de 3.706% nos registros de denúncias por intolerância religiosa no Brasil.
            Diante desse quadro pensou-se que talvez fosse possível identificar no ambiente de circulação simbólica de sentidos elementos comunicacionais da prática social da intolerância religiosa, na perspectiva de que o locus da pesquisa poderia propiciar uma compreensão da interação mediada pelo sistema virtual da internet, o qual, devido às peculiaridades próprias do processo digital em rede, promove diferentes formas de interação, inclusive o diálogo e a negociação de sentidos e significados.
            Assim, realizou-se um recorte de uma ação judicial requerendo a retirada da internet de 14 vídeos postados no Google Brasil, e considerados ofensivos por representantes das religiões: umbanda (brasileira) e candomblé (afro-brasileira). Neste caso em apreço, o Estado negou o pleito e afirmou, por meio de ato do juiz, que as impetrantes não se constituíam como religiões, deslegitimando-as.  O fenômeno ocorreu de abril a junho de 2014, com destaque em rede nacional por emissoras de televisão e rádio, não só nos meios jornalísticos, como também, programas de talk show, blogs, sites de cunho religioso, jurídico e político. Foram catalogados mais de 132 sites que trataram do assunto.
            A luz dessa pesquisa, o texto de Correia nos permitiu adentrar na discussão do tema net-ativismo, tendo a possibilidade de observar que o poder e alcance da comunicação agregam uma nova força profunda como algo potencialmente global e não somente de opinião pública. Em um mundo cada vez mais globalizado, as experiências vividas em qualquer país servem de referência para o mundo inteiro.
            Sabe-se que hoje, qualquer pessoa que tenha acesso a uma rede de internet pode conseguir informações de muitas partes do mundo, assim se acredita que tal condição seja um fator intensificador de mobilizações e práticas sociais. Afinal, tomar conhecimento que o ditador de um país distante perdeu o poder, favorece a consciência de que é possível alterar a ordem das coisas. Entretanto, tal cenário coloca questões complexas em perspectiva, por exemplo: como se dá a formação da opinião pública reticular? O que é esfera pública a partir da sociedade em rede? Qual a dimensão dessa esfera pública? Qual o alcance da opinião pública? Estas e outras questões ressoam em sociedade, diante do aumento potencial dos medias.
            Por fim, diferente de Correia, acredita-se que é possível olhar para o net-ativismo com outra perspectiva: a de que a sociedade moderna iniciou uma nova era em que talvez seja mais viável a materialização de suas queixas, que se iniciam no ciberespaço e terminam em práticas sociais concretas de conquista de direitos à cidadania. Nesse sentido, pode-se esperar uma sociedade cada vez mais presente no cenário em que habita o cidadão-comprometido.
             





[1] Mestranda em Comunicação – FIC/UFG

sábado, 17 de setembro de 2016

Para que compreender a morte?

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Sinto a angústia da finitude
Nenhuma dualidade corpo/alma me consola
Sinto um aperto no peito
Nenhuma lágrima será capaz de amenizar o imponderável
Sinto a respiração suspensa
Nenhuma espera dura tanto

xxxxxxxxxxxxxx

Que sentido faz observar nossos entes queridos morrendo? 
Compreender que jamais poderemos revê-los. 
Seria melhor ser como as plantas.
As flores que crescem sem a preocupação com a eternidade. 
Para que ser eterno? 
Talvez, para tentar compreender o outro e a nós mesmos.
Porém, é tão difícil  viver bem com qualquer pessoa. 
Pois, todo ser humano é um universo insondável, misterioso e fluído, assim, mesmo que eu  envelheça mil anos tentando entender o outro, o diferente de mim, confesso que não sou capaz.  Minha inteligência é mediana.
 Apesar de ser teimosa como uma mula.
Meus esforços de compreensão de como se dão as relações entre as pessoas parece infrutiferamente vazias.  
Nada sei e mesmo que soubesse de nada adiantaria, pois o buraco negro nos suga a todos. 

Elizabeth Venâncio

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Resenha crítica: SILVA, Juremir M. O que pesquisar quer dizer: como fazer textos acadêmicos sem medo da ABNT e da CAPES. Porto Alegre: Sulina, 2010.


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            O autor inicia sua obra citando Paul Feyerabend,filósofo austríaco, considerado um defensor do anarquismo teórico. De acordo com Feyerabend, não deveria haver fundamentação prescritiva do método científico que limitasse as atividades dos cientistas e dessa maneira restringisse o progresso científico. Será essa forma de pensar que ao longo do livro de Silva será compartilhada de forma argumentativa.
            Baseado em experiências de docência Silva observou que cada monografia, dissertação ou tese exibia um longo referencial teórico e uma parte sobre metodologia. Raras vezes o referencial teórico e a metodologia se encontravam. Quase nunca a metodologia derivava do referencial teórico. Na maior parte das vezes, o referencial teórico era um olhar emprestado que enchia páginas. Fixando um pano de fundo e não tinha utilidade para a análise. Já a metodologia parecia uma grade que se escolhe num supermercado metodológico, em outras palavras, Silva quis dizer que muitas das vezes o candidato a cientista utiliza determinadas teorias e metodologias que se contradizem ou nem se complementam, desvinculadas de uma visão do todo. Sendo assim, sem realmente entender a relação entre as partes, produzindo textos obscuro, ilegível e cheio de palavras difíceis.
     O referencial teórico, de acordo com Silva, é uma lente. Se o pesquisador já a usa desde antes de olhar o objeto e a considera perfeita, a sua tendência será enxergar tudo do mesmo modo ou com o mesmo grau de miopia. O referencial teórico é um olhar tomado de empréstimo. Ajuda a ver o fenômeno estudado. Amplia o campo de observação. Não é uma visão de mundo completa nem substitui o olhar do pesquisador sobre o seu objeto.
        O importante para o pesquisador é entender que a pesquisa deve trazer à luz o que está encoberto pela familiaridade e esse processo envolve três fases: estranhamento; entranhamento; e desentranhamento. Que significa: o ato do pesquisador de abstrair seus valores, pré-conceitos; e mergulhar no universo do outro; após, sai do outro, volta a si, retoma seus valores, agora afetado pelo objeto, justamente porque utilizou uma abordagem dialógica, buscando narrar o vivido como o  cronista do eu que também é um outro.
     Nota-se que na descrição de Silva, fica claro que as fases: estranhamento, entranhamento e desentranhamento são etapas vivificadas por outros profissionais, tais como,  artistas, escritores etc., pessoas que podem ser definidas como aquelas que levantam o véu do cotidiano, almejando iluminar algo que outrora era imperceptível.
      Segundo Silva, a regra de ouro do texto acadêmico em ciências humanas é muito simples: nada pode ficar sem argumentação, momento em que tudo exige demonstração. Porém, não basta ter o melhor argumento, é preciso saber apresentá-lo. Para isso, o pesquisador deve confrontar os diferentes teóricos, sendo capaz de fazer a interlocução, a mediação e verificar pontos fortes e fracos em cada um deles, para então poder superá-los, gerando uma síntese.
          Um pesquisador em comunicação deverá explicita o caminho do pensamento que utilizou  para realizar a pesquisa, ou seja, ao final de uma pesquisa, ele deve ser capaz de responder a seguinte pergunta: qual foi o caminho descoberto?
Conforme Silva, uma metodologia é uma lente de apoio que permite à teoria formatar o vivido. Em lugar de escolher uma teoria para melhor abordar um objeto, talvez fosse o caso de o pesquisador, por meio do estranhamento sair dos seus quadros teóricos antes de entranhar-se no desconhecido familiar do cotidiano.
            Se por um lado Silva sempre ressalta que o pesquisador não deve escolher o mesmo caminho metodológico sem reflexão, nem usar sempre as mesmas lentes teóricas; por outro lado,  na página 20,  ele afirma:  não se deve demonizar a técnica, nem a metodologia. Tampouco se deve endeusá-las. Quando o pesquisador se submete à metodologia, perde o caminho do descobrimento.  
            O pesquisador em comunicação deve atentar para, ao menos, três ordens de coisas:
- A relação entre as palavras
- A relação entre as palavras e as coisas
- A relação entre as coisas e as coisas
            Segundo Silva, uma metodologia complicada, excessivamente construída, artificial, faz o objeto dar respostas complicadas e artificiais.  Precisamos retornar às origens simples e retomar a ciência, o pesquisador deve ser capaz de responder a algumas questões muito simples e claras:
- o que foi desvendado?
- o que foi desvelado?
- o que passou de encoberto a descoberto?
- o que emergiu?
- o que veio a tona?
- como descobriu o que estava encoberto?
- como fez o objeto falar?
- como fez passar do “correto” (exato) ao verdadeiro?
            A boa metodologia é só isso. Como fazer passar do encoberto ao descoberto.
            De acordo com Silva as melhores pesquisas quase sempre são aquelas que partem de um bom problema. O bom problema é aquele que pode ser explicado em uma conversa de bar, e ser entendido. Já as hipóteses, podem ser divididas em quatro categorias: hipótese de confirmação; hipótese de exploração; hipóteses de especulação; hipóteses de refutação; hipóteses de inversão.
            Desse modo, sempre que o pesquisador se depara com um novo objeto de estudo deve formula hipóteses que tendem a:
a) confirmar o senso comum
b) confirmar o conhecimento científico preexistente
c) refutar o senso comum
d) Inverter tudo o que se dizia e pensava até ali.
            Sobre a ABNT, Silva afirma que ela não manda, ela recomenda. Mas a produção científica é uma peça que exige ser apresentada seguindo alguns passos. E o mais inteligente, não é pagar para alguém colocar seu trabalho "dentro das normas da ABNT", é aprender as normas de verdade.
            Silva afirma que a sociedade precisa de mitos para alimentar seu imaginário. Que os crie, alimente e proteja. Ao pesquisador cabe buscar a verdade. Esse é o seu papel. Pois pesquisar é isso: fazer emergir algo que não está à primeira vista.
            Diante do exposto, vale ressaltar que o livro de Silva é de uma clareza e coerência argumentativa muito difícil de encontrar; demonstrando domínio do assunto, humor e criatividade. Suas colocações nos fazem refletir acerca do papel do pesquisador e dos caminhos a ser escolhido.
            Apesar disso, ele apresenta velhos mitos, já desvelado por Thomas Kuhn (p. 53), na sua obra A função do dogma na investigação científica. O mito do “cientista como o investigador sem preconceitos em busca da verdade; o explorador da natureza o homem que rejeita idéias preconcebidas, que coleciona e examina fatos crus, objetivos e que é fiel a tais fatos e só a eles. Qual é o fato que a história nos apresenta? Preconceito e resistência parecem ser mais a regra do que a exceção no desenvolvimento científico avançado. Quem não aprender a dançar conforme a música, a dizer as mesmas coisas, a ler os mesmos livros, a afirmar as mesmas teorias, cedo se descobrirá isolado. Se há preconceitos e resistência, isto não se deve a uma deformação individual, mas é uma expressão da vida social do grupo, “características da comunidade, profundamente enraizadas no processo mesmo pelo qual os cientistas são treinados para trabalhar em sua profissão” (Kuhn. p. 55).
            A maioria absoluta das pessoas envolvidas na pesquisa, além disto, deve trabalhar em equipes nas quais não possuem autonomia alguma, e somente uma fração insignificante está em condições de fazer trabalho independente proposto por Silva. Das milhares de pessoas engajadas em trabalho científico, calcula-se que não mais que mil tenham a liberdade de escolher os seus próprios problemas (William H. Whyte, Jr. The Organization Man. p. 205).
            Quem quiser fazer ciência, tem de se submeter às instituições científicas: serão elas que: o iniciarão na linguagem, etiquetas e rituais da ciência; reconhecerão formalmente as suas credenciais e o declararão como “apto”; financiarão suas pesquisas; fornecerão o público que eventualmente lerá os artigos eruditos que vierem a ser produzidos.
            Segundo Stark, Werner. The Sociology of Knowledge. Londres, Routledge and Kegan Paul, 1967. p. 71. “O pensamento expurgado de valores pode ser um ideal, mas é absolutamente certo que ele não é uma realidade em parte alguma”
         Desse modo, apesar de bem intencionado, Silva cai em uma armadilha de atribuir as práticas do sujeito todo um problema que é sistêmico, afinal não é a fraqueza dos olhos. Ainda que os olhos sejam abertos, continua a escuridão, “porque a sua visão é tolhida pelo conjunto total de axiomas que lhe entremeiam o pensamento histórica e socialmente determinado” (Karl Mannheim. Ideologia e utopia. p. 182). A cegueira não se resolve por meio de uma cirurgia epistemológica, porque ela tem suas origens no lugar social de onde o cientista pensa.

Elizabeth Venâncio
Mestranda em Comunicação UFG