sexta-feira, 24 de junho de 2011


CRIANÇAS TRABALHANDO!

O sol queimou-me.
Tão devagarzinho...
Dia sim, outro também.
As mãos tarimbadas.
Tão devagarzinho...
Dia sim, outro também.
A idade pouca, as tarefas opulentas
Dia sim, outro também.
Abdiquei da escola.
Antes do B – A, BA.
Só durei por ganha-pão.
Dia sim, outro também.
Dinheiro escasso, dores abastadas.
Arroz e feijão.
Dia sim, outro também.

terça-feira, 21 de junho de 2011

ÉPSILON

Diante da TV, Sofia Pensa: Como é plausível que tantas coisas caibam dentro de algo tão pequeno? Sentada, quieta, com os olhos levemente fixos no horizonte. Submersa na idéia de que o ser humano inventa tantas coisas para se esquecer de que é um épsilon. Não somos Deuses, muito menos seus filhos. Somos uma centelha de esperança solta ao vento, nada nos distingue do resto do que existe, mas possuímos a coragem de acreditar que o pensamento nos torna superior. Descartes, o filósofo dizia “Penso, logo existo”. Não podemos negar que existimos, mas podemos pensar que o fato de sermos não nos torna melhores ou piores que as estrelas do céu. Podemos ficar felizes em ter ido à lua, em ter arquitetado a internet, os prédios, os carros e tudo mais, contudo o que realizamos não nos fez compreender quem somos, nem respondeu a pergunta: Será que o mundo é grande ou nós somos acanhados demais?

domingo, 19 de junho de 2011

Revelação: Já vivi tanto...

Revelação: Já vivi tanto...: "Já vivi tanto que todos estes anos me parecem uma eternidade. Já hoje, quando me olhei, não me reconheci. Estou consideravelmente bem mais ..." Somos assim, nunca os mesmos, sempre transmudados, mas deve ser por isso a crença na alma, parece que mesmo na mudança existe ao que permanece. parabéns. BELO texto.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Escravo de nevoeiros!


Anjo... Onde estão tuas feridas?

Príncipe das trevas... Onde está tua verdade?
Mulher...
Homem...
Faceta de uma mesma moeda.
Arrisco inventar que tua existência não é precária.
Ela não é unicamente o que apreendi.
Nestes milênios que te conheço.
Oh! insustentável disparidade! Do quê tu falas?
Discursos de um mundo que não é teu!
Por que a fé em teus olhos?
Agonizante... Escravo de nevoeiros!


sábado, 11 de junho de 2011

Catadora de cabelo!

“Ah”! Pretensão de voltar
Ao tempo do alvorecer,
Dos sonhos de minha meninice
Dos anos em que só corria!
Alegria, vigor, que sonhos,
Naqueles tempos fugazes,
À sombra das jabuticabeiras..”

Meu avô era abundantemente vaidoso. Gostava dos cabelos cortados a cada quinze dias, nada de tesoura, apreciava a navalha.
Sempre vinha o barbeiro, velho e magricela, com a feição própria das aves esfomeadas do sertão nordestino. Ficava por horas e horas a conversar, falava de um tudo, das brigas de vizinhos, das moças que se perderam, dos rapazes a aprontar e, sobretudo de política, que sempre foi a paixão de meu avô.
Enquanto sua voz esganiçada se projetava além dos muros de nossa casa, os cabelos fragmentavam-se, deslizando serenamente para o chão. Cabelos graúdos, másculos, alguns fios brancos a misturar-se no negro ébano.
Aos meus olhos tudo parecia encantador. Ficava sentada bem perto, observando. Havia uma força emanando daquele pequeno espaço, a sombra do cajueiro, força na expressão do olhar de meu avô. Nos gestos submissos do barbeiro, na sua maneira de projetar-se para baixo, formando uma corcunda muito próxima de uma reverencia. Um príncipe sendo galardoado. Um rei recebendo os cuidados de um servo.
O barbeiro dizia “Senhor Antônio este país precisa de homens como o senhor, abarrotado de sabedoria para governar”.
Meu avô balançava a cabeça como a dizer “Deixa... deixa.”. Mas seu semblante transmudava em felicidade, harmonizado com aquelas palavras, recordando os tempos em que participava ativamente da política.
Gostava por demais de passeata, sentia um arrepio quando o hino nacional se fazia ouvir. A multidão aquecia seu coração.
Os políticos vinham de longe conversar com ele. Queria sua opinião, convidar pra comício, festança de inauguração, batizados de apadrinhados, e assim se ia ao longe.
Meu avô andava léguas para ouvir um político falar, sentia que algo estava acontecendo, que a roda da vida se movia. Gostava dos discursos inflamados. Palavras de luta por dias melhores, igualdade de condições, direitos trabalhistas... direitos humanos e tudo que conduzisse o homem a sua dignidade.
Gostava muito de Getulio Vargas, nunca negou.
Eu fico a pequena distância, esqueço o pé de jabuticaba, deslembro das brincadeiras de roda, pois, assim que termina o corte, meu avô grita meu nome e como em um ritual diz “menina, sepulte estes cabelos no pé da bananeira.”
Eu tenho seis anos e nunca deixei cair nenhum fio.
Corro feliz a juntar a rica penugem de meu avô, amo alisá-los por entre os dedos, observar como são escuros, lustrosos, lisos, grossos.
Tomo muito cuidado, conhecedora da importância de minha tarefa, afinal desde o primeiro dia em que exerci minha função de catadora de cabelo ... Lembro que vovô pediu que me sentasse.
A sala parecia enorme e os móveis agigantaram.
Sentada no sofá, fiquei pacífica, mal respirava, imaginando que seria castigada a qualquer momento, (que travessura teria feito?), procurava pelos corredores de minha consciência infantil, mas nada, nenhuma pista, por fim desisti. Já não me lembrava mais.
Vovô com sua expressão grave, os braços nas costas e o corpo ereto, mesmo em sua cadeira de rodas, ainda sem as duas pernas, era um colosso. Olhou-me demoradamente.
Eu estava a ponto de chorar, quando finalmente ele amainou, parecendo manteiga derretendo em panela quente, e me confidenciou a importância de se enterrar os cabelos no pé da bananeira.
Contou-me em detalhes que os cabelos estão vivos, são partes de nós e mesmo cortados continuam vivos e a comunicar-se com os seus irmãos, que bravamente resistem no alto de nossas cabeças.
Assim, se jogarmos os cabelos cortados no lixo, eles ficarão aborrecidos e com certeza se queixarão com os cabelos-sobreviventes, logo haveria uma revolta completa e irrestrita.
São unidos os cabelos.
Meu avô dizia “Pense, cabelos que serviram tão bem, que não deixaram que o sol escaldante queimasse a pele da cabeça, que embelezou, que nos acompanhou por toda a vida, que nada pediu. Como podemos maltratá-los?.”
Meu avô gostava de seus cabelos lisos e felizes. Eu gostava de enterrá-los.




O malfazejo é não lutar!

Perto dali. Maria José conversa longamente com Efigênia e Isabel.

- É sina de mulher, se conforma!
- Ora Zezé – era assim que Efigênia chamava Maria José – seu marido é um louco e quer levar todos para sua canoa furada. Ontem mesmo, quando vinha da feira ouvi risinho a dizer “Lá vai os garimpeiros”. Tenho vontade de morrer.
- Efigênia tem razão – disse Isabel – não tem um dia que eu não choro. Não durmo mais na mesma cama que Nonato. Ele parece de pedra. Fica lá me olhando... Me olhando...tenho vontade de bater nele até sair sangue.
- Acontece que eles vão de qualquer jeito. Agora, vocês podem escolher.
- Como se fosse fácil – Efigênia.
- Gostar, eu não gosto, mas às vezes penso, que se meus pais não tivessem vindo para cá, talvez eu nem estivesse viva.
- Ora, não diga isto! – falou Isabel
- É a verdade. Era uma seca, uma falta do que comer, do que fazer. Lembro de ficar horas observando o tempo a ondula diante de mim. Aquilo não era vida! Agora temos casa, comida e para Amariano falta alguma coisa.
- Falta cabeça – gritou Efigênia
- Dignidade. Pensa que não sei. Eu também sinto este cheiro que emana de mim, um gosto de coisa estragada. Não sou mulher de duas caras, tenho vontade de vestido novo, sapato, perfume, bife bom na mesa. Não é vergonha desejar o melhor. O malfazejo é não lutar.
Retornaram ao trançado cada qual com seu pensamento, porém alguma coisa havia mudado.