sexta-feira, 12 de outubro de 2012

FOFOCA




Uai! Lá vem Sofia, filha de Manoel das Cruzes, e Ambrósio, filho de um grande amigo meu, Venâncio, aquele que mora lá pras bandas do Rio do Peixe.
Epa!! De onde estão vindo estes dois, desconjuro! Cruz Credo! De pensar que seus pais não se bicam. Venâncio é uma boa pessoa, mas quando pisam no seu calo, sai de baixo, vira bicho, só vendo, Agora o Manoel das Cruzes, tá  pra nascer cabra tão ruim.
            Mas vamos deixar disto que vosmicês é capaz de pensar que sou fofoqueiro, num sabe que fofoca a gente aqui de Pilar de Goiás não faz não, o máximo é um “comentariozinho sem maldade.” Temos até uma história que apresenta bem esta cidade.
            Tudo aconteceu quando foram contar para Cida, Filha de Tiquinha, que viram ela e o Bastião Gudinho  lá pras bandas do morro do suspiro, que tem este nome... Bão, deixa pra lá.
            Cida ficou uma fera, quando tomou conhecimento, atravessadamente, por meio de Benedita, do que estavam falando dela na cidade. Nessa hora ela rodou a baiana e gritou para quem quisesse ouvir que não iria descansar enquanto não estourasse a cara do desavergonhado, que havia começado aquele falatório.
Dona Tiquinha resolveu acompanhar a filha, afinal era o nome da família que estava em jogo, e perguntaram para Benedita quem havia dito tamanha infâmia.  Após uma longa pausa enquanto ajeitava a saia, alisava os cabelos. Bendita parecia querer ganhar tempo, quando de repente soltou a queima roupa:
- Foi Tuta, e sorriu por dentro ao imaginar como tudo aquilo ia terminar. Isto porque Tuta e Benedita não se davam e lá se foram as três marchando pra casa de Tuta, que avisada pelos moleques da rua, não aguentou  e na porta esperava quando as três chegaram.
- Vieram me contar que tu andaste espalhando coisa de mim por aí! Foi logo falando Cida,  antes mesmo de se achegar direito. Tuta, que já sabia de tudo, não se abalou.
- Pois é, né Cida, negar eu não nego, mas quem me contou esta estória foi o Bola, peraí, não , foi não, foi Xocha mulher de Cu-Seco.
            E lá se foram as quatro, pisando duro, para a casa de Xocha. Foram chegando e entrando, pois afinal, ninguém  ali era dado a cerimônia, quem não era parente de sangue, tinha algum cunhado, genro, coisa que o vale, na família.
Encontraram Xocha tirando água da cisterna, que com o susto deixou o balde cair, como não estavam interessadas no balde, Cida mais que depressa repetiu a mesma pergunta e obteve a seguinte resposta:
- Não sabe Cida, que este povo tem uma língua muito grande – falava e olhava para Tuta – Verdade que eu disse mesmo, mas quem me disse foi Careca.
E lá se foram todos para casa de Careca, que para infelicidade geral do dia na estava em casa, depois de explicarem para a mulher de Careca,  molharem a garganta com água e café, o bolinho de arroz não aceitaram não, afinal estavam com pressa. Seguiram todos para a roça, até mesmo a mulher de Careca que não era boa das pernas e os dois filhos. Da cerca mesmo, Cida animada pela platéia gritou:
- Vem cá Careca, que tu precisa me explicar umas coisinhas  - nesta hora não só veio Careca como todos  os peões,  que aproveitaram o barulho para enrolar o serviço.
- Fiquei sabendo que tu andou espalhando coisa de mim e Bastião Gudinho ...  antes dela terminar Careca avançou no palavreado.
- Olha Cida, tu deve saber que num sou hôme de fofoca. Nesta hora a roda cacarejou e um reboliço assanhou o mulherio.
 – Nem tempo  tenho, mas como ia te falar, eu arrazoei sem maldade, mas quem me contou foi o velho Lixande – e  lá se foram, com os peões atrás, a comitiva, e por onde passavam arrastavam mais gente, quando finalmente chegaram à casa de Lixande, que morava a meia légua afastado da cidade. Cida já  com os pés doendo e sem  muito convicção na voz repetiu a pergunta.
            Bobo o velho Lixande não era, se fez de desentendido pensou um pouco, manteve o suspense enquanto pode, cuspiu no chão diante do olhar de todos e por fim ponderou.
- Bão, vocês todos aqui me conhecem, eu falei, num sabe Maria Aparecida, mas quem me contou tudo TIM TIM por TIM TIM foi o Luizinho, irmão de Itamar, filho do Zé.
O espanto foi geral, pois afinal, Luizinho mora lá onde Judas perdeu a meia, pois a bota ele perdeu bem antes, foi então que se começou uma acalorada discussão sobre como fazer, onde arrumar o dinheiro para ir até lá,  teve gente que sugeriu uma rifa, tipo aquelas de dias de reis, outros ainda mais festeiros, sugeriram uma grande festa, com churrasco, sanfoneiro, rojão e o povo dava gritos de aprovação, mas aí havia  um problema, tinha que ir alguém com Cida, para trazer a noticia em primeira mão, todos os detalhes, o tom de voz, frase por frase... mas quem, se todos queriam ir e ninguém abria mão disto.
De repente Cida sem anunciar nem nada olha para todos e diz.
-  Num quero mas sabê. E partiu deixando atrás de si uma gente decepcionada.
 Enquanto ela caminhava para casa alguém sugeriu, por que não tomar umas pingas no botequim do Dito e quem sabe mais tarde poderia até sair um arrasta pé. Os que não haviam participado da marcha vinham chegando e cada novo participante a história crescia e as gargalhadas aumentavam, quando o assunto já estava quase fenecendo e o sol nascendo levanta  Sandoca com a cara já cheia e voz própria dos embebedados e grita pro povo.
- Também,  o povo de Pilar não pode ver uma coisa, quatro ou cinco vezes que já sai comentando!!!! – e a gargalhada foi geral, nesse momento em algum lugar a orelha de alguém coçou. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cofiemos na conquista dos Africanos!!

 

Como brasileira, morando em um país cujas leis possuem um rol de direitos e garantias fundamentais, baseadas no chamado "Princípio da Dignidade Humana”, tenho acompanhado com preocupação, desde 10 de agosto, a greve nas minas de platina da companhia Lonmin, na África do Sul. Mineiros reivindicam aumento salarial e condições de trabalho.

Acreditamos que a humanidade já deveria ter superado situações como esta, em que trabalhadores chegam ao extremo de abrir mão da própria vida, para aprimorar as condições de trabalho e diminuir a desigualdade financeira de uma categoria profissional.

Os mineiros são donos de uma história de enfrentamento racial, entre os negros e a minoria branca, que dominava o país e, economicamente, continuam dominando. Podemos observar resquício desta cultura com a decisão de prender os mineiros grevistas, aplicando a doutrina do "propósito comum", que durante o “apartheid” foi utilizada para perseguir e deter sistematicamente aos cidadãos que enfrentassem o governo em prol da democracia e da igualdade racial no país.

O chamado “apartheid” foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes foram cerceados pelo governo.

É este povo que, agora, luta há mais de trinta dias pelo direito de uma vida mais digna. E que nos faz lembrar tantas pelejas históricas, como das 130 operarias têxteis em 1857, em Nova Iorque, que morreram queimadas, pelas mesmas reivindicações, o que originou o Dia Internacional da Mulher.

Nos Estados Unidos, em Chicago, no dia 1º de maio de 1886, milhares de trabalhadores organizaram uma greve geral e foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho. A repressão policial resultou em prisões e mortes de muitos trabalhadores, para recordar foi criado o Dia do Trabalho.

Estes acontecimentos nos remetem a frase de abertura do Manifesto de Marx (1848)A história de toda a sociedade até hoje tem sido a história das lutas de classes.” segundo as idéias marxianas, há muito tempo existe uma contínua exploração de uma minoria, estabelecida no poder, sobre a maioria dos trabalhadores, desde a antiga oposição entre patrícios e plebeus, passando pela Idade Média com a servidão e a revolução industrial em meados do século XVIII. Mas a história também afirma que as conquistas dos trabalhadores, como a jornada de 8 horas, as férias, o descanso aos domingos, a previdência social, a indenização por acidente, aposentadoria e tantas outras conquistas são frutos de lutas.

Confiemos que os trabalhadores das minas da África do Sul, no futuro, sejam lembrados pelo dia em que suavizaram sua degradação/exploração e ampliaram sua dignidade.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Que parâmetros nos mantém vivos?



Durante muitos e muitos anos eu li.
Livros, pessoas, ruas, calçadas...
Mas nada se fez distinto.
Claro, conciso, limpo....
Que parâmetros nos mantém vivos?
Sobreviventes do caos.

Durante muitos e muitos anos observei o mundo.
Que nunca era o mesmo.
Na multiplicidade ou na dualidade.
Não consigo fazer a síntese.
Bom ou ruim depende do ponto.
Não depende de mim.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tabu: homossexualidade





Estou incomodada desde o momento em que li o artigo Ensinar a pensar? da jornalista Rosângela Chaves, na quarta-feira, no jornal Opopular. Nele encontrei todos os elementos que estudamos no curso de Filosofia. Reconheci, de imediato, as palavras, os filósofos citados e a intenção do texto em dizer que existem outras perspectivas ao pensamento. É possível pensar diferente daquilo que encontramos no mundo que nos abraça.


A idéia contida no texto vem passando de geração a geração, entusiasmando a juventude a tentar pensar um conceito novo para a sociedade. O que não está visível é que é impossível pensar o novo se o antigo não nos incomoda.

Ora, hoje podemos dizer, em alto e bom som, que não discriminem os outros pela sua orientação sexual. Afinal, o amor também pode ocorrer entre gays e lésbicas. Quem poderia fazer está afirmação em 1880, no Brasil? Parece algo impensável para aquela época e perfeitamente natural para hoje. Podemos dizer que estamos criando um conceito diferente para a homossexualidade? Acredito que não. Estamos apenas legitimando a sua existência e retirando dela a condição de tabu.

Segundo Marilene Chauí, em seu livro Convite a filosofia, os tabus se referem a objetos e seres puros ou purificados para os deuses, ou a objetos e serem impuros, que devem permanecer afastados dos deuses e dos humanos. É assim que, em inúmeras culturas, a mulher menstruada é tabu (está impura) e, no judaísmo e no islamismo, a carne de porco é tabu (é impura).

Hoje, mudamos a perspectiva do olhar e quando temos a oportunidade de observar o passado, como retratado na novela Gabriela, nos sentimos envergonhados. Sou filósofa e estou envergonhada pela forma como as mulheres daquele período eram humilhadas e um dia acredito que todos nós sentiremos vergonha pela forma que tratamos os nossos homossexuais.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

FELIPE

Felipe relembra o nascer do dia em Goiás. As crianças acordando para a aula de dona Tita-olho-roxo. Sete e meia o sino toca, todos correm fazendo fila para o hino nacional. Cada fila com dez crianças, os menores na frente, construindo uma estranha escada. Rosto levantado. Mão no peito e após o hino vem o pai nosso, cantado com voz de cotovia. De repente uma matraca se punha no meio do bando, no fim de tudo: – Bom dia Dona Tita! Gritava o coro.


Quase sempre a resposta era um muxoxo, um ranger de dentes apertado, sofrido, como canção de retirante, parecendo mais um adeus ao filho que vai a guerra ou que morreu.

Dona Tita-olho-roxo é o retrato do sofrimento. Padecia muito, era o que todos diziam. Havia uma aceitação social do fato.

As crianças não entendiam muito bem por que ela sofria. Só se recordam das palavras dos pais – não contraria Dona Tita, coitada! Seja obediente para dona Tita, tadinha! E as frases se repetiam, sempre mudando os adjetivos, coitada, desgraçada, infeliz...

Todos sabiam, ninguém negava, fazia parte dela, ás vezes faltavam adjetivos de infelicidade para descrevê-la.

Seu marido era homem ruim. Não trabalhava, só bebia. Havia dias em que ficava sem comer, então de uma hora para outra, sem que nenhuma perturbação rompesse o ar, ele simplesmente começava a quebrar tudo que via pela frente.

Era pouco o que possuía. Apenas uns pequenos bancos de madeira, uma pastileira e uma mesa, que bastava um solavanco para se espatifar, feito casca de ovo. Sempre depois de curado a carraspana ele consertava os móveis.

Na pequena casa o fogão à lenha imperava grandioso, sem nunca ter sido molestado, apesar dos chutes, nenhuma lasca saia dele. Parecia imultável, não sem razão, era feito do barro lá da Bica de Dona Enestina. Barro bom.

Então, a maior parte dos sopapos e pontapés restava mesmo para Dona Tita e as filhas. Já se perdeu a conta das vezes que ele correu atrás da filha mais velha, para matá-la ou mesmo fazer coisas que não se deve comentar.

Dona Tita-olho-roxo nunca pensou em larga o marido. Muitos diziam que era orgulho, pois ninguém da família dela aprovou aquele casamento, mas ela insistiu, chorou e até disse ao pai que se não matrimoniasse iria fugir, tanto fez que acabou por se casar.

Foi moça muito bonita, descreve os mais velhos. Agora, parece reduzida a trapos. Vestido velho, cabelo sempre a fugir do coque e sua mãe a dizer “Agüenta!”

A não ser pela família de Dona Tita, a cidade de Goiás abriga pessoas felizes, pacatas, sem grandes ambições ou sonhos e para conhecê-las basta dar uma volta na praça e logo vai ouvindo dos moradores a história completa. Quem mora. Quem tem filhos, netos, qual a origem, tudo em apenas uma tarde. De casa em casa, tomando um café aqui, comendo uma empada ali, e quando se nota somos gente de Goiás.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MOÇAS DE FAMÍLIA



               Felipe observa a pequena cidade de Goiás, cercada de montanhas e construída em solo colonial. A cidade tem de encanto os casarios, cujos quintais terminam em córregos de água fresca.
                Antigamente nos salões passeavam os herdeiros da riqueza, sustentada pela exploração do ouro. Falando tanto o francês quanto o português. As igrejas construídas por escravos ostentam imagens barrocas pintadas a ouro, obra do escultor Veiga Valle.
            Em outras épocas  o luxo dos livros e das sedas importadas convivia com a desesperança. Nas primeiras décadas do século XX, já não se construía mais do que uma casa por ano, e nas noites de luar, o lirismo das serenatas era pontuado pelos gemidos da febre, provocada pelo esgoto que corria  a céu aberto.
            Felipe olhou para o alto. A noite brilhava sem estrelas. Uma enorme lua cheia clarificando o que a escuridão não poderia esconder. O vento sopra ao longe. Paira no ar uma estranha sensação de vaso quebrado.
            O chão tem vontade própria. A rua torna-se longa, indo de um lado ao outro Felipe balanceia. Apóia-se em Manelão.
            Caminhando nas passadas da incerteza, escorrega como pião na mão de criança.
            Na face à angústia que desfigura a alma. Nunca havia bebido tanto, mas a lembrança de Bianca não o abandona. Está irritado, chateado com ela. Afinal porque aquele contratempo? Eles estavam tão bem. “Não preciso falar de amor, nem  mentir.” pensou Felipe.   "Não nego que às vezes minto. Minto despreocupadamente. Compreendo que é necessário. Elas me ouvem e sabem que minto. Não tem como não saber. Como odeio essas garotas ridículas. agoniza Felipe. "Sempre tão carentes, querendo ouvir palavras. Fingindo que acreditam. Sei que elas me desejaram tanto quanto eu, mas precisam se enganar, afinal são moças de família." 

domingo, 3 de junho de 2012

SOMENTE A FLUIDEZ É ETERNA





Rubens Alves é um escritor saboroso.
Ao longo de seus textos vamos degustando pequenos pedaços de prazer.
Martha Medeiros é cotiano. 
Pinceladas de felicidade por nada.

Nos dois podemos perceber um encantamento.
O gozo de estar no mundo, sem  que o peso de todas as coisas o atormente.
Amo escritores como Gabriel García Márquez, Cecilia Meireles, Vinicius de Moraes, Umberto Eco, Regina Magnabosco, Carla Ceres, MFC,  e tantos.
Quiserá que meu ser fosse assim, SEDUTOR.

Ontem, tive tantos pensamentos bonitos; de repente tudo é confusão.
Sou fenomenológica.
Observo os fenômenos e nada é.  Tudo desliza e me perco.
Não sei o que é ser ética, nem moral.
Quiserá defender uma “causa”, ou acredita que existem “causas” para serem defendidas.
Somente a fluidez é eterna.
Esta certeza consome.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O QUÊ FOI?



- O quê foi? – falou Maria.
- Não sei. Tudo é severo, inexplicável.
- Por que está em meu quarto?   
- Estou em todos os lugares com você.
- É sempre assim, sem lucidez.
- Ora, não reconhece meu olhar de repreensão.
- É tão difícil agradá-la.
- Por que conheço seus sonhos de infância,  os mais longínquos.
- Qual o problema?
- O tempo se esgota.   
- O quê quer?
- Responda você! Eu sou apenas um reflexo no espelho. 

sábado, 5 de maio de 2012

PERCEBO O INDISTINGUÍVEL


Corro sozinha, nenhum vocábulo, somente axiomas.
Revivo meus entes queridos, que não posso tocar.
Lembro coisas que fiz há anos e que ainda me sinto culpada.
Perdôo a mim mesma e corro.
Reflito acerca de tudo, noto as árvores.
Gosto mesmo de correr sozinha!
O tempo se torna infinito.
Arrazôo a teoria do caos.
Penso em mil formulações e conceitos, querendo definir o que sou.
Quem sou?
Gosto de correr sozinha, mas nunca estou só.
Convivo com os pisares desengonçados, elegantes, vacilantes... de tantos que não sou eu.
Sou diferente...
E mesmo diferente faço parte, como se fosse um fragmento da calçada, um pedaço do  céu.
Gosto de correr sozinha, por que percebo o indistinguível.

terça-feira, 10 de abril de 2012

PÁSSARO SEM CANTO



Quero teus olhos nos meus!
Todas as palavras na boca!

Quero  entender o caos, sintetizando a manhã.



Há dor na proximidade que cala.
Obscurecendo o  infinito.
Está tudo aí? Não sei.
Preciso das palavras, não das caretas.


Signos e sons...
Quero morrer com as sílabas.

Nunca no silêncio do ser obnubilado?

Pássaro sem canto.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A escolha ecoa no infinito

Somos eternamente responsáveis por nossas escolhas.

Mesmo diante do imponderável.

Ainda, confiando que não há alternativa.

Sempre será uma escolha.

Uma senhora envelhecida e dois filhos adultos e drogados.

Opções:

deixar que os filhos sigam seu caminho, OU

permanecer no inevitável sofrimento: violência, roubo, desrespeito...

Quem poderá julgar?

Os deuses nos permitiram escolher,

mas a escolha ecoa no infinito.




sábado, 17 de março de 2012

Como deixa-las falar?



É bizarro desejar algo ardentemente


e não ter a graça divina para alcança-la.

De onde virá o anseio?

O gosto doce do encontro com as letras.

A palavra no papel.



Precariedade de aptidão.

Histórias presas em mim.

Querendo ganhar vida.

Viver amores, tragédias...

Como deixa-las falar?






sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PEQUENO URSO



Um urso muito pequeno e carinhoso caminhou até um rio enorme e ficou observando os peixes passarem por ele. Tudo o que conseguia ver era a imensidão das águas, a forma voluptuosa como o vento majorava as  ondas.
O rio corria forte, intransponível, soberano, nunca igual, sempre novo, desafiando a vontade. No meio do rio, os peixes a zombar do pequeno urso, que sentiu seus olhos  ficar turvos e uma lágrima percorrer quieta  seu rosto. Ele experimentava sua impotência e a culpa por sua covardia. O rio era demais para o pequeno urso, então se sentou e esperou que seu corpo nada pedisse.
- Que faz aí? Perguntou a gaivota
- Observo os peixes. Respondeu o urso
- É um artista?
- Não, tenho fome.
- Então, por que não se joga no rio?
- Por medo de minha insignificância. Não vê a imensidão, com certeza morrerei.
- De todo modo morrerá.  Você já tem um não, agora precisa correr atrás do seu sim.
O urso pensou, refletiu e galopou para o rio.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A insustentável perfeição!

Beatriz aos 40 anos diante da pergunta “Gostaria de voltar a ter 20 anos?” Que maravilha ter 20 anos relembrou Beatriz, onde todas as possibilidades estão latentes. O momento exato em que tudo é possível.  Fazer diferente, ser distinto e criticar. No corpo a vitalidade, no coração o desejo e na cabeça nenhuma razão!  “Não! não desejo ter 20 anos, pois gosto dos meus olhos agora, de perceber as coisas sem pressa, de acariciar as plantas, de ter tempo para cada episódio, sem que nada me pareça inútil. Gosto de saborear a vida em pequenos detalhes, de apreciar meu rosto no espelho e não ter vergonha do meu corpo. O tempo aos 20 anos parece infinito, mas aos 40  ele é o logos, a insustentável perfeição.”

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012



• Onde encontrar?


• O quê?

• A libertação de minha servidão!

• Que servidão?

• A do desejo que balança meus olhos!

• Conhece-se a servidão?

• Sim, mas não como livrar-me dela!

• A resposta não está no desejo, muito menos na servidão!

• Então onde?

• Em você!

• Sou livre para conhecer minha condição de servidão, mas sou escravo por não escolher a liberdade?

• Ao conhecer suas correntes é capaz de julgar se permanece acorrentado!

• O medo e o prazer me detêm! Medo do desconhecido e prazer no experimentado.

• Então já escolheu?

• Minha angústia, minha culpa por ser covarde é tudo que tenho!

• Não só você mais milhões...!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

FÉRIAS


 As férias chegou e com ela a sensação de não querer.
Nenhuma linha no papel!
Nenhum esforço!
Nada!
Apenas o aquietar,
nadificando o todo.