sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Mulheres não dão boas jogadoras de futebol


            Ao dizê-lo, vou feliz pelo caminho vencido por Flávio Paranhos, no belo texto “Mulheres não dão boas filósofas”. Fui saboreando palavra por palavra e apeteceu-me ser simpática. Aprofundando o debate, justamente por que se aconchega o dia internacional da mulher.
             Lembrando de uma propaganda de televisão, marca mundial de automóveis, que na tentativa de vender seu produto apresentou uma suposta mudança do papel social da mulher. Uma jovem, com trajes de executiva, chegava a sua casa, após um dia de trabalho e cumprimentava seu marido. O qual estava ocupado preparando a refeição da família. Para surpresa desse homem, que “comandava” a cozinha e cuidava de suas filhas, sua esposa o presenteia com um carro novo.
            Diante da cena, pressente-se que a trilha mais pisada pela humanidade é a do engano. Triste e infeliz o sentido dessa propaganda, que desvela no “papel social” toda opressão, apenas substituindo o ator oprimido. Pode-se pensar então, diante do que foi dito, que o trabalho doméstico é degradante. Claro que não, todo trabalho pode ser gratificante, principalmente quando há amor.
            Muitas mulheres preferem cuidar de suas casas e filhos e realizam esta tarefa com ternura e alegria, mas existem aquelas que desejam ser físicas nuclear. Ao ansiar romper estereótipos encontram barreiras, pois a ordem social foi instaurada sobre a base do igual, assim, se for mulher deve agir desta ou daquela maneira.
            Esqueceu-se que a alma é um santuário, cujas janelas permanecem abertas de aurora a aurora. Cheia de sonhos, desejante, pulsante e criativa, assim, é a alma, independente de gênero, de raça ou de etnia.
            Esqueceu-se que espaçosa é a alma e vasto o mundo, por isso, há tanta diversidade e potencialidade querendo germinar. E a mulher é um oceano sem contornos e sem medidas, suas aspirações agitam-se dentro dela como luzes e sombras em pares estreitamente atrelados.
            Todavia, a inflexibilidade do medo é atroz com a alma. O medo de que as coisas não sejam melhores se forem de outra forma. Então, tal qual a propaganda do carro, mantém-se todos os papéis intacto, como se tudo já tivesse sido escrito, como se todas as falas houvessem sido ditas, restando apenas repeti-las.
            Todas as mulheres são... Ódio eterno a tirania da igualdade, porque nada é igual a nada sobre a terra, mas tudo carece de condições para ter capacidade de realizar-se.
            Quando se diminui a possibilidade de uma pessoa ser competente naquilo que gosta, atrofia-se o mundo.  Quando se convive, sossegado, com a desigualdade salarial numa mesma função, pactua-se com a incoerência, afinal, se o trabalho é o mesmo o que importa a cor dos olhos.  
            Por que poucas mulheres ocupam cargos políticos ou acadêmicos? Se for preguiça que continue assim. Mas, se as flores não estão geminando por falta d’água e a água só é outorgada pela sociedade, então há um problema.
            No Índice Global de Desigualdade de Gênero de 2014, em que o Brasil perdeu nove posições, ao passar da 62ª colocação para 71ª entre 142 nações. Nota-se que ao invés de aperfeiçoar as relações sociais, estamos acanhando, apequenando, regredindo.
            E o pior de tudo, não se festeja as jogadoras de futebol? Elas têm pouca visibilidade e suas conquistas são simbolicamente desprestigiadas, uma vez que raramente são celebradas ou mesmo mencionadas na mídia, inclusive esportiva.
            Quase ninguém sabe que existe uma Copa do Brasil de Futebol Feminino, que acontece desde 2007; que há Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino; que há Copa Libertadores da América de Futebol Feminino. Será que alguém imagina o grande desafio que se anuncia para as temporadas 2015 e 2016 para a Seleção Brasileira feminina de futebol.
            Respeitar o outro por seus méritos é uma benção, pois nem toda mulher é boa jogadora de futebol, mas aquela que for deve ser valorizada. Não estimá-la é o mesmo que desconsiderar o prazer de um bom espetáculo. E assim, contribuir para uma sociedade mais triste.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O PAPA FRANCISCO MASCARA OU DESVELA A REALIDADE

       



             O Papa Francisco seduz para si os olhares, não apenas pelo símbolo de poder e influência que representa ao redor do mundo, mas principalmente pela postura de enfrentamento de problemas que acompanham a humanidade, entre eles, o da distribuição de renda.
            No dia 6 de fevereiro, a BBC, por meio de sua subsidiária no Brasil, noticiou “Para conservadores nos EUA, papa é 'marxista' e 'ambientalista radical'”. Chamadas na mídia, dessa importância, são convidativas para uma reflexão sobre o que se abrigaria por detrás deste título? Afinal de contas, já se vão séculos de discussões de como reorganizar a sociedade de forma racional, para que não exista um desequilíbrio tão grande entre capital e trabalho. Em outras palavras, o que se vê é que o capitalismo não cumpriu a promessa de dignidade e decência ao ser humano, anunciada pela livre economia de mercado, e agora faz-se necessário pensar em novas soluções para melhorar de forma global  a vida em sociedade.
            O jornalista britânico Austen Ivereigh, autor da recente biografia do pontífice, “O Grande Reformador”, acredita que muitos nos EUA não entendem a mensagem do papa. Ora, entendem sim. O que parece haver, neste caso, é a ocorrência do princípio da dissonância cognitiva. Segundo a qual e,  conforme os pressupostos do psicólogo social Leon Festinger, entre os seres humanos existe uma tendência a preferir e valorizar aquilo que vai ao encontro de suas certezas. Por isso mesmo, os desacordos percebidos entre crenças, ideologias e conceitos são combatidos, muitas vezes de forma cruel, inclusive atacando, sem piedade, o interlocutor da ideia.
            "Seus comentários sobre o capitalismo são surpreendentes. Parece que ele não valoriza o fato de que o capitalismo foi e continua sendo uma força incrível nos últimos 200 anos para aumentar os níveis de vida de milhões de pessoas em todo o mundo", disse James Pethokoukis , jornalista e analista do American Entreprise Institute (AEI, na sigla em inglês), em entrevista à BBC Mundo.
            Será que é possível comparar a vida dos camponeses da Idade Média munidos de enxadões com a vida dos trabalhadores pós-modernos, aparelhados com seus celulares? A cada época é necessário pensar a respeito das relações, da forma como convivemos no mundo. A crítica que o Papa Francisco faz ao falar contra a manutenção das condições que perpetuam a exclusão social parece ser mais profunda do aquilo que estamos acostumados a perceber. Fala contra manter excluídos sociais. Uma reserva de pessoas abaixo da linha de pobreza que se submetem a qualquer coisa que o capital careça.
            Para explicar a ideia que expomos, não é preciso ir longe. Goiás resgatou do trabalho análogo ao de escravo 141 trabalhadores em 2014, conforme dados do Ministério do Trabalho e Emprego. E aqui mesmo, muitos dizem não existir trabalho escravo, que isto é apenas cultura! Ou seja, avaliam o fato de não ter condições de alojamento, alimentação, salário, segurança e saúde na ambiência de trabalho como naturais, principalmente por estas condições sempre terem se mantido desse modo, inalteradas desde a colonização.
            Outro ponto da matéria da BBC Brasil é chamar o Papa Francisco de ambientalista radical. Ambientalista tudo bem, pois o ambientalismo de modo geral se fundamenta nas noções de que a vida na Terra é integrada e interdependente, que as outras espécies, tanto como o homem, têm o direito à vida. Os recursos naturais são limitados e devem ser manejados com objetividade e prudência, tendo em vista também a justiça social e a viabilidade econômica. Em resumo, toda pessoa de bom senso quer o bem de seu planeta, que significa o seu próprio bem, mas “ambientalista radical” pressupõe cessar o desenvolvimento humano em prol da natureza, sendo esta considerada uma visão utópica de ordem política, social e econômica.
            O jornalista Austen Ivereigh continua afirmando na matéria que o papa "Quando fala da economia e dos mercados, o faz seguindo a tradição da educação social da Igreja Católica. Não está falando de um ponto de vista ideológico."

            Neste caso, Ivereingh parece estar fundamentando sua afirmação no conceito de ideologia de Karl Marx e dos pensadores adeptos da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, que consideram a ideologia como uma ideia, discurso ou ação que mascara um objeto, mostrando apenas sua aparência e escondendo suas demais qualidades. Nesta perspectiva, o papa Francisco não age de um ponto de vista ideológico, pois não mascara, mas tenta desvela uma situação que precisa ser pensada.