Mulheres não dão boas jogadoras de futebol


            Ao dizê-lo, vou feliz pelo caminho vencido por Flávio Paranhos, no belo texto “Mulheres não dão boas filósofas”. Fui saboreando palavra por palavra e apeteceu-me ser simpática. Aprofundando o debate, justamente por que se aconchega o dia internacional da mulher.
             Lembrando de uma propaganda de televisão, marca mundial de automóveis, que na tentativa de vender seu produto apresentou uma suposta mudança do papel social da mulher. Uma jovem, com trajes de executiva, chegava a sua casa, após um dia de trabalho e cumprimentava seu marido. O qual estava ocupado preparando a refeição da família. Para surpresa desse homem, que “comandava” a cozinha e cuidava de suas filhas, sua esposa o presenteia com um carro novo.
            Diante da cena, pressente-se que a trilha mais pisada pela humanidade é a do engano. Triste e infeliz o sentido dessa propaganda, que desvela no “papel social” toda opressão, apenas substituindo o ator oprimido. Pode-se pensar então, diante do que foi dito, que o trabalho doméstico é degradante. Claro que não, todo trabalho pode ser gratificante, principalmente quando há amor.
            Muitas mulheres preferem cuidar de suas casas e filhos e realizam esta tarefa com ternura e alegria, mas existem aquelas que desejam ser físicas nuclear. Ao ansiar romper estereótipos encontram barreiras, pois a ordem social foi instaurada sobre a base do igual, assim, se for mulher deve agir desta ou daquela maneira.
            Esqueceu-se que a alma é um santuário, cujas janelas permanecem abertas de aurora a aurora. Cheia de sonhos, desejante, pulsante e criativa, assim, é a alma, independente de gênero, de raça ou de etnia.
            Esqueceu-se que espaçosa é a alma e vasto o mundo, por isso, há tanta diversidade e potencialidade querendo germinar. E a mulher é um oceano sem contornos e sem medidas, suas aspirações agitam-se dentro dela como luzes e sombras em pares estreitamente atrelados.
            Todavia, a inflexibilidade do medo é atroz com a alma. O medo de que as coisas não sejam melhores se forem de outra forma. Então, tal qual a propaganda do carro, mantém-se todos os papéis intacto, como se tudo já tivesse sido escrito, como se todas as falas houvessem sido ditas, restando apenas repeti-las.
            Todas as mulheres são... Ódio eterno a tirania da igualdade, porque nada é igual a nada sobre a terra, mas tudo carece de condições para ter capacidade de realizar-se.
            Quando se diminui a possibilidade de uma pessoa ser competente naquilo que gosta, atrofia-se o mundo.  Quando se convive, sossegado, com a desigualdade salarial numa mesma função, pactua-se com a incoerência, afinal, se o trabalho é o mesmo o que importa a cor dos olhos.  
            Por que poucas mulheres ocupam cargos políticos ou acadêmicos? Se for preguiça que continue assim. Mas, se as flores não estão geminando por falta d’água e a água só é outorgada pela sociedade, então há um problema.
            No Índice Global de Desigualdade de Gênero de 2014, em que o Brasil perdeu nove posições, ao passar da 62ª colocação para 71ª entre 142 nações. Nota-se que ao invés de aperfeiçoar as relações sociais, estamos acanhando, apequenando, regredindo.
            E o pior de tudo, não se festeja as jogadoras de futebol? Elas têm pouca visibilidade e suas conquistas são simbolicamente desprestigiadas, uma vez que raramente são celebradas ou mesmo mencionadas na mídia, inclusive esportiva.
            Quase ninguém sabe que existe uma Copa do Brasil de Futebol Feminino, que acontece desde 2007; que há Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino; que há Copa Libertadores da América de Futebol Feminino. Será que alguém imagina o grande desafio que se anuncia para as temporadas 2015 e 2016 para a Seleção Brasileira feminina de futebol.
            Respeitar o outro por seus méritos é uma benção, pois nem toda mulher é boa jogadora de futebol, mas aquela que for deve ser valorizada. Não estimá-la é o mesmo que desconsiderar o prazer de um bom espetáculo. E assim, contribuir para uma sociedade mais triste.

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