terça-feira, 31 de maio de 2011

ANTÔNIO

Ainda pequeno Antônio já dominava o vocabulário Barra-Cordinês.
- Rana – era assim que Antônio, com seus dois anos e meios chamava Raimunda.
- Hum-Hum
- Dá batelão.
- Não intica!
- Só bocadinho.
- Dou-lhe um broque!
A verdade é que Raimunda nunca bateu em Antônio, dizia para mantê-lo quieto, sabia que Amariano, seu pai, era severo demais e naquela época Antônio seu único filho homem, o orgulho da família. Escolheu o nome para o menino não por causa de Santo Antônio, nada a desmerecer o santo, muito pelo contrário, era devoto, fervoroso e fiel, um verdadeiro católico apostólico romano, negar jamais, porém o desejo pelo nome surgiu em uma conversa...
Amariano gostava de aprender, tinha o prazer dos viciados, caminhava léguas por um bom-papo, não media esforços quando o assunto era o debate sadio de idéias, gostava de argumentar, encontrar soluções, falar de política, ouvir histórias de outras épocas.
Foi assim que descobriu o brasão de sua família, sentia orgulho em mostrá-lo, tanto que mandou bordá-lo no bolso de suas camisas, ficava bonito de se ver.
Trazia sempre junto ao peito uma folha amarelada pelo tempo onde continha a origem da família Oliveira, enchia a boca para contar que o sobrenome é de origem toponímica, morreu sem saber o que era “to-po-ní-mi-ca”, mas sentia um orgulho sem tamanho.
Amariano conhecia também seu segundo sobrenome “Fernandes” que tem seus primeiros registros na Castilla, uma comunidade autônoma espanhola situada na região Sul península Ibérica. É um sobrenome chamado "patronímico" ou seja, derivado de um nome próprio, no caso Hernando que por sua vez resultou em Fernando e finalmente em Fernandes. O sobrenome é originário dos tempos visigóticos (do século III ao século VI D.C.). Algumas variantes são Fernández, Ferranz, Fernandeiz, Fredinandoz entre várias outras.
Amariano ao conhecer alguém tacava logo as informações de seu nome e queria saber do desafortunado tudo o que pudesse arrancar.
O nome, dizia Amariano, acompanha a pessoa por toda a vida, nunca muda, assim quando nasceu seu filho macho, esperou, esperou, esperou até que um dia de lua cheia, com os vaga-lumes a brincar pela noite, as crianças correndo em seu eterno pique-esconde, a mulher a fazer bolo, pensamento a perder de vista.
Na entrada da frente do casebre três bancos, grandes e robustos. Amariano sentado. Pensamentos a viajar, ora pelos bancos, gostava do numero três, porque assim era a trindade, pai, filho e espírito, por isto construiu três bancos grandes para que os amigos pudessem achegar-se. “Construir coisas é tão bom” Sorria Amariano. Ora sua cabeça fervilhava preocupado com o nome do menino, afinal sua mulher perdeu três, antes deste vingar e se... “Deus me ilumine”, morrer pagão.
Observa o levantar da poeira, o vento a beijar sua face, provocando a alma. Sente um desejo de chorar e rir, dominado por uma alegria, satisfação de saber-se vivo.
Gosta de olhar o mundo e ainda mais de agradecer a Deus, sorri com uma estranha sensação de deslumbramento. Sorria calado, rosto fechado, não queria que ninguém soubesse da emoção que pequenas coisas despertava em sua alma, muito menos do profundo amor...
Foi neste dia que imaginou como seria viver em outra terra, conhecer o mundo. Tantas possibilidades.
Sentia ao mesmo tempo ódio da falta de recursos e culpa por não conseguir ganhar mais dinheiro, por mais que trabalhasse, por tudo que fazia o dinheiro só dava para comer...
- Boas noites, como vai compadre – era Jovito, homem letrado e feio de dá dó.
- Indo como Deus manda, pensava aqui comigo que meu filho já fez semanas e ainda não achei o nome, sem contar que preciso batiza.
- Nome é o que de mais importante existe, veja só, ontem mesmo estudando em um livro encontrei isto.
- O que é?
- Diz aqui: Antão, Antônio; Significa o que está na vanguarda e indica uma pessoa de força interior e fé inabalável nos seus próprios ideais. Isto lhe permite estar sempre à frente, abrindo caminhos que geralmente levam a resultados positivos para todos.
- Vala-me Deus!!!
- O que foi?
- Parece que o amigo adivinhou, eu agorinha mesmo pensava em sair pelo mundo, deitar cabelo, conhecer outras paragens e este nome...
- O que tem o nome?
- Ah de me dá sorte.
A noite corria longe quando o assunto terminou.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Eu nasci imortal




Penso e sou mulher.
Difícil, mas insisto.
Como apreender a existência neste estilhaço de tempo?
Eu nasci imortal.
Meu coração alforriado.
Minhas ações desordenadas, revolucionárias, apaixonadas...
Sem conhecer limites.
Alheia a restrição espacial.
Só tive medo do tempo.
Senhor implacável.
Minuto após minuto.
A cada pequena perda.
Suprimindo...
Jugulando...
Dilacerando a alma.
A imortalidade empalideceu.
E observo a morte.
Vejo-a galopar freneticamente.
Sorrio, pois posso deté-la.
Eu armazenada em uma folha de papel.
Bem guardada poderei percorrer séculos, ludibriando o efêmero.
Mesmo em um opúsculo que nunca será lido.
Um folhetim resguardando pequenos fragmentos de manha e deleite.
Venci.

domingo, 29 de maio de 2011

Maria de Jesus inundada de vida.

Brotou Maria, mas não idêntica a tantas.


Era Maria de Jesus inundada de vida.

Recebeu agulha e linha.

Cerziu linho, chitas, gabardines e foi costurando a vida.

Sem nenhum luxo.

Cheia de filhos.

Por vezes sem ter o que comer.

Outras colhendo a ajuda alheia.

Maria cresceu com anseios.

Queria o Mar...

Os rios...

Cidades distantes.

Mas Maria apareceu mulher em um sertão remoto

Pouco soube da leitura e da escrita.

Aos quinze casou-se com um varão, 20 anos mais velho.

Aos dezesseis achou que iria morrer.

Dando à luz ao primeiro, dos oitos filhos que teria.

Teve medo de onça!

Sentiu frio na cama vazia.

Sentiu raiva...

Sentiu tantas coisas calada.

Que se tornou Maria igual a tantas.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Opiniões dilaceradas pela estupidez

Hidrobike! Uma bicicleta parada no fundo de uma piscina com alguém pedalando loucamente, Gertrudes sorriu levemente entre uma fungada e outra pensando acerca de si mesma.  Observou, a sua frente, uma  piscina olímpica, nela  pessoas nadando de um lado para o outro como peixes no aquário, adiante um pedaço de céu, algumas árvores entrecortadas e  um som ensurdecedor, que  conservava suas pernas em atividade. Era como um chicote estalado no ar, uma ordem para seguir (Para onde!). Por mais que ela pedalasse não saia do lugar, por mais que fizesse força a única coisa que conseguia era continuar vendo as mesmas coisas. Sentiu uma profunda  certeza, de que foi assim sua vida inteira.  Querendo ver além da aparência do mundo, lutando por descobrir a razão das coisas, mas tudo se resumiu a nada, porque sua inteligência não é capaz de compreender o todo. Sua consciência observar coisas entrecortadas, opiniões dilaceradas pela estupidez, fragmentos de muitas idéias truncadas, de pessoas que estiveram pedalando sem sair do lugar e imaginando coisas das quais nada sabem. Ouvindo a balbúrdia das vozes que os obrigam a continuar pedalando...