sábado, 17 de setembro de 2016

Para que compreender a morte?

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Sinto a angústia da finitude
Nenhuma dualidade corpo/alma me consola
Sinto um aperto no peito
Nenhuma lágrima será capaz de amenizar o imponderável
Sinto a respiração suspensa
Nenhuma espera dura tanto

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Que sentido faz observar nossos entes queridos morrendo? 
Compreender que jamais poderemos revê-los. 
Seria melhor ser como as plantas.
As flores que crescem sem a preocupação com a eternidade. 
Para que ser eterno? 
Talvez, para tentar compreender o outro e a nós mesmos.
Porém, é tão difícil  viver bem com qualquer pessoa. 
Pois, todo ser humano é um universo insondável, misterioso e fluído, assim, mesmo que eu  envelheça mil anos tentando entender o outro, o diferente de mim, confesso que não sou capaz.  Minha inteligência é mediana.
 Apesar de ser teimosa como uma mula.
Meus esforços de compreensão de como se dão as relações entre as pessoas parece infrutiferamente vazias.  
Nada sei e mesmo que soubesse de nada adiantaria, pois o buraco negro nos suga a todos. 

Elizabeth Venâncio

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Resenha crítica: SILVA, Juremir M. O que pesquisar quer dizer: como fazer textos acadêmicos sem medo da ABNT e da CAPES. Porto Alegre: Sulina, 2010.


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            O autor inicia sua obra citando Paul Feyerabend,filósofo austríaco, considerado um defensor do anarquismo teórico. De acordo com Feyerabend, não deveria haver fundamentação prescritiva do método científico que limitasse as atividades dos cientistas e dessa maneira restringisse o progresso científico. Será essa forma de pensar que ao longo do livro de Silva será compartilhada de forma argumentativa.
            Baseado em experiências de docência Silva observou que cada monografia, dissertação ou tese exibia um longo referencial teórico e uma parte sobre metodologia. Raras vezes o referencial teórico e a metodologia se encontravam. Quase nunca a metodologia derivava do referencial teórico. Na maior parte das vezes, o referencial teórico era um olhar emprestado que enchia páginas. Fixando um pano de fundo e não tinha utilidade para a análise. Já a metodologia parecia uma grade que se escolhe num supermercado metodológico, em outras palavras, Silva quis dizer que muitas das vezes o candidato a cientista utiliza determinadas teorias e metodologias que se contradizem ou nem se complementam, desvinculadas de uma visão do todo. Sendo assim, sem realmente entender a relação entre as partes, produzindo textos obscuro, ilegível e cheio de palavras difíceis.
     O referencial teórico, de acordo com Silva, é uma lente. Se o pesquisador já a usa desde antes de olhar o objeto e a considera perfeita, a sua tendência será enxergar tudo do mesmo modo ou com o mesmo grau de miopia. O referencial teórico é um olhar tomado de empréstimo. Ajuda a ver o fenômeno estudado. Amplia o campo de observação. Não é uma visão de mundo completa nem substitui o olhar do pesquisador sobre o seu objeto.
        O importante para o pesquisador é entender que a pesquisa deve trazer à luz o que está encoberto pela familiaridade e esse processo envolve três fases: estranhamento; entranhamento; e desentranhamento. Que significa: o ato do pesquisador de abstrair seus valores, pré-conceitos; e mergulhar no universo do outro; após, sai do outro, volta a si, retoma seus valores, agora afetado pelo objeto, justamente porque utilizou uma abordagem dialógica, buscando narrar o vivido como o  cronista do eu que também é um outro.
     Nota-se que na descrição de Silva, fica claro que as fases: estranhamento, entranhamento e desentranhamento são etapas vivificadas por outros profissionais, tais como,  artistas, escritores etc., pessoas que podem ser definidas como aquelas que levantam o véu do cotidiano, almejando iluminar algo que outrora era imperceptível.
      Segundo Silva, a regra de ouro do texto acadêmico em ciências humanas é muito simples: nada pode ficar sem argumentação, momento em que tudo exige demonstração. Porém, não basta ter o melhor argumento, é preciso saber apresentá-lo. Para isso, o pesquisador deve confrontar os diferentes teóricos, sendo capaz de fazer a interlocução, a mediação e verificar pontos fortes e fracos em cada um deles, para então poder superá-los, gerando uma síntese.
          Um pesquisador em comunicação deverá explicita o caminho do pensamento que utilizou  para realizar a pesquisa, ou seja, ao final de uma pesquisa, ele deve ser capaz de responder a seguinte pergunta: qual foi o caminho descoberto?
Conforme Silva, uma metodologia é uma lente de apoio que permite à teoria formatar o vivido. Em lugar de escolher uma teoria para melhor abordar um objeto, talvez fosse o caso de o pesquisador, por meio do estranhamento sair dos seus quadros teóricos antes de entranhar-se no desconhecido familiar do cotidiano.
            Se por um lado Silva sempre ressalta que o pesquisador não deve escolher o mesmo caminho metodológico sem reflexão, nem usar sempre as mesmas lentes teóricas; por outro lado,  na página 20,  ele afirma:  não se deve demonizar a técnica, nem a metodologia. Tampouco se deve endeusá-las. Quando o pesquisador se submete à metodologia, perde o caminho do descobrimento.  
            O pesquisador em comunicação deve atentar para, ao menos, três ordens de coisas:
- A relação entre as palavras
- A relação entre as palavras e as coisas
- A relação entre as coisas e as coisas
            Segundo Silva, uma metodologia complicada, excessivamente construída, artificial, faz o objeto dar respostas complicadas e artificiais.  Precisamos retornar às origens simples e retomar a ciência, o pesquisador deve ser capaz de responder a algumas questões muito simples e claras:
- o que foi desvendado?
- o que foi desvelado?
- o que passou de encoberto a descoberto?
- o que emergiu?
- o que veio a tona?
- como descobriu o que estava encoberto?
- como fez o objeto falar?
- como fez passar do “correto” (exato) ao verdadeiro?
            A boa metodologia é só isso. Como fazer passar do encoberto ao descoberto.
            De acordo com Silva as melhores pesquisas quase sempre são aquelas que partem de um bom problema. O bom problema é aquele que pode ser explicado em uma conversa de bar, e ser entendido. Já as hipóteses, podem ser divididas em quatro categorias: hipótese de confirmação; hipótese de exploração; hipóteses de especulação; hipóteses de refutação; hipóteses de inversão.
            Desse modo, sempre que o pesquisador se depara com um novo objeto de estudo deve formula hipóteses que tendem a:
a) confirmar o senso comum
b) confirmar o conhecimento científico preexistente
c) refutar o senso comum
d) Inverter tudo o que se dizia e pensava até ali.
            Sobre a ABNT, Silva afirma que ela não manda, ela recomenda. Mas a produção científica é uma peça que exige ser apresentada seguindo alguns passos. E o mais inteligente, não é pagar para alguém colocar seu trabalho "dentro das normas da ABNT", é aprender as normas de verdade.
            Silva afirma que a sociedade precisa de mitos para alimentar seu imaginário. Que os crie, alimente e proteja. Ao pesquisador cabe buscar a verdade. Esse é o seu papel. Pois pesquisar é isso: fazer emergir algo que não está à primeira vista.
            Diante do exposto, vale ressaltar que o livro de Silva é de uma clareza e coerência argumentativa muito difícil de encontrar; demonstrando domínio do assunto, humor e criatividade. Suas colocações nos fazem refletir acerca do papel do pesquisador e dos caminhos a ser escolhido.
            Apesar disso, ele apresenta velhos mitos, já desvelado por Thomas Kuhn (p. 53), na sua obra A função do dogma na investigação científica. O mito do “cientista como o investigador sem preconceitos em busca da verdade; o explorador da natureza o homem que rejeita idéias preconcebidas, que coleciona e examina fatos crus, objetivos e que é fiel a tais fatos e só a eles. Qual é o fato que a história nos apresenta? Preconceito e resistência parecem ser mais a regra do que a exceção no desenvolvimento científico avançado. Quem não aprender a dançar conforme a música, a dizer as mesmas coisas, a ler os mesmos livros, a afirmar as mesmas teorias, cedo se descobrirá isolado. Se há preconceitos e resistência, isto não se deve a uma deformação individual, mas é uma expressão da vida social do grupo, “características da comunidade, profundamente enraizadas no processo mesmo pelo qual os cientistas são treinados para trabalhar em sua profissão” (Kuhn. p. 55).
            A maioria absoluta das pessoas envolvidas na pesquisa, além disto, deve trabalhar em equipes nas quais não possuem autonomia alguma, e somente uma fração insignificante está em condições de fazer trabalho independente proposto por Silva. Das milhares de pessoas engajadas em trabalho científico, calcula-se que não mais que mil tenham a liberdade de escolher os seus próprios problemas (William H. Whyte, Jr. The Organization Man. p. 205).
            Quem quiser fazer ciência, tem de se submeter às instituições científicas: serão elas que: o iniciarão na linguagem, etiquetas e rituais da ciência; reconhecerão formalmente as suas credenciais e o declararão como “apto”; financiarão suas pesquisas; fornecerão o público que eventualmente lerá os artigos eruditos que vierem a ser produzidos.
            Segundo Stark, Werner. The Sociology of Knowledge. Londres, Routledge and Kegan Paul, 1967. p. 71. “O pensamento expurgado de valores pode ser um ideal, mas é absolutamente certo que ele não é uma realidade em parte alguma”
         Desse modo, apesar de bem intencionado, Silva cai em uma armadilha de atribuir as práticas do sujeito todo um problema que é sistêmico, afinal não é a fraqueza dos olhos. Ainda que os olhos sejam abertos, continua a escuridão, “porque a sua visão é tolhida pelo conjunto total de axiomas que lhe entremeiam o pensamento histórica e socialmente determinado” (Karl Mannheim. Ideologia e utopia. p. 182). A cegueira não se resolve por meio de uma cirurgia epistemológica, porque ela tem suas origens no lugar social de onde o cientista pensa.

Elizabeth Venâncio
Mestranda em Comunicação UFG






quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A vivacidade das inovações e o peso da tradição



               No horizonte político de Goiás as trombetas anunciam novas eleições. Quem subirá ao pódio da vitória? Os que gritam inovações e realmente são novos na administração do bem público ou a tradição, que já parece conhecer o caminho, tantas vezes percorrido e que se mantêm obstinadamente depois de tantos erros, tantos esquecimentos, tantas novidades, tantas metamorfoses, que às vezes a identidade do político parece sofrer mutações imemoriais.
                Para pensar acerca de um assunto tão complexo e importante para nossa sociedade é preciso fazer a pergunta: Qual a relação entre o que o candidato diz e sua prática política? O discurso é constituído pela diferença entre o que se poderia dizer corretamente numa época, segundo as regras da gramática e as da lógica, e o que é dito efetivamente.
                Por exemplo, o discurso do candidato a prefeito Waldir Soares, cuja pauta de campanha é a segurança pública, conforme noticiado no Jornal O Popular no último sábado (20), apresenta falhas de lógica, se por um lado a competência do prefeito é cuidar do patrimônio público e do bem-estar da sociedade, por outro lado nossa constituição não destina, nem aloca recursos financeiros para a segurança pública no âmbito municipal. 
               Assim, se o candidato Waldir for eleito; e se ele resolver cumprir com as promessas de campanha; logicamente terá que desviar recursos de outras áreas essências, tais como a merenda escolar, a coleta de lixo etc.  ou  será que subirá ainda mais os impostos?
                Os municípios não são legalmente responsáveis pela segurança pública, apesar de que o problema da segurança é de todos. A questão colocada em debate é: nosso município tem disponibilidade financeira para arcar com o projeto político de Waldir Soares?
                Na disputa o discurso do candidato Iris Rezende aposta na experiência administrativa, conforme matéria veiculada nesse conceituado jornal. A ideia de que é preciso ter uma bagagem administrativa antes de se aventurar pelos caminhos incertos de cuidar daquilo que é de todos parece uma premissa válida, promissora e eficaz, pois as palavras não são senão vento, um barulho de asas que se tem dificuldade de escutar ao longo da história, mas as práticas e ações sociais permanecem.
                Contudo, o grande problema para candidatos como Iris Rezende é: como superar o mal-estar, o descontentamento, a revolta da população cuja saúde, educação, lazer são precários e a identidade dos responsáveis por essa condição insustentável está associada aos velhos coronéis da política.
                 Finalmente, deve-se pensar que Goiás merece uma política progressiva com discursos coerentes. É preciso realizar uma análise geral das práticas políticas realizadas até agora, a começar pelas terceirizações, cargos comissionados, desvalorização do servidor público e principalmente a  má gestão da coisa pública.

Elizabeth Venâncio
Filósofa, mestranda em Comunicação pela UFG