sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O problema é a forma que pensamos!


Bianca rememorou tudo que havia ouvido naquele dia. As palavras grosseiras, os gestos de ódio. Não entendia porque as aparências mexiam tanto com as pessoas. Ela ainda era a mesma menina que andava de bicicleta, mas bastou colocar um batom vermelho, um shortinho curto, salto alto e uma bolsa roubada de sua mãe, não precisou dizer palavras, para que os homens a devorassem com os olhos, como se pudessem despi-la de uma forma brutal e rude.  Sentia o rosto arder ao reviver as obscenidades que ouviu. Porém nenhuma dor foi maior do que quando sua mãe disse “Se você anda na rua como uma prostituta, quem vai te respeitar. Se você for violentada, o estuprador terá todo o direito, afinal você está procurando”. Bianca pensa “eu não sou só uma roupa, eu tenho sentimentos, tenho princípios.” Não entende porque na televisão tem tanta gente vestindo assim. Porque nos outdoors tem tanta foto de mulheres mostrando tudo, revistas, jornais, tudo é só mulher seminua! Até prá vender pasta de dente. Agora me dizem que assim elas podem ser violentadas. Será que elas querem ser violentadas e se vestem assim? Talvez elas já estejam sendo violentadas!! Pensou com horror Bianca. Mas afinal o que são os homens? Feras incapazes de conter seus desejos? Bianca acredita que sua mãe pensa que sim, mas ela já estudou os índios e sabe que mesmo despido ninguém agarra ninguém a força. Então de onde virá este comportamento? Bianca pensou por horas e de repente sentiu que sabia a resposta – “O problema é a forma que pensamos, não é minha roupa que está errada, é o pensamento do conjunto de todas as pessoas, que  vão reproduzindo coisas, sem perceber.” Bianca sorriu, subiu em sua bicicleta e foi para casa.

Essa é a minha participação na 19ª edição sentidos do Projeto Suas Palavras com o mote: O problema é a forma que pensamos

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A violência é vibrante


Observo...
A violência é vibrante.
Recheiam os noticiários, filmes...ofegantes.
Viajante com a dor alheia.
O quê importa?
Se o sangue é radiante!
E o homem é o lobo do próprio homem.
Já dizia Thomas Hobbes.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Redefiniremos o humano

Plaina o espírito de insanidade,
nos manuscritos da evolução humana.
Sem política os paleolíticos,
jaziam sem criticar.
No período Medieval, bestial nobreza e severo clero.
Espíritos famintos agonizaram.
Oceano de história, troianos, romanos, americanos...
Fratricidas.
Vidas retorcidas.
Resignação?
Inclinação, never again!
Habitamos a reorganização,
confirmação da implantação do novo.
Gritos, frêmitos, ritos de libertação.
As vozes se multiplicam.
Erudito, somos nós!
Inédito a falta de mito.
Olhamos o mundo on-line.
Não mais serranos,
Hoje, redefiniremos o humano.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Como posso acudir?

Se teus olhos não existem.
Quisera libertar-te da fria e escura caverna,
do negro casulo.
Quisera que um Deus ouvisse minhas súplicas,
e as de minha mãe também.
Quisera possuir magia,
para restaurar-te a alma.
Tu, cuja escravidão me oprime.
Teus olhos vendados.
Teus lábios a dizer mentiras.
O abandono dos teus dois filhos.
Quisera conhecer palavras...
Remédios...
Simpatias...
Que te devolvessem a vida,
os amigos,
a mulher,
o respeito dos que te amam.
Quisera que teu vício não fosse maior que o mundo.
O mesmo mundo que tu abandonaste.
Quisera, irmão, te ver sorrir novamente.
E em teu sorriso ver libertos todos os que te cercam.
Quisera não chorar.
Quisera não sangrar diante do presságio de teu corpo estendido, em um canto qualquer.
Quisera que teu amigo da droga te conhecesse.
Soubesse que um dia jogaste bola.
Foste o herói de tua filha
Quisera que não houvesse cocaína, maconha, crack...entre nós
Quisera...



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Nenhum deles soube do outro


16.02.1952 – Ramon se levantou, olhou seu rosto no espelho e uma sensação esquisita tomou conta de seu estomago, sabia que aquele não era seu rosto. Nunca foi tão velho, enrugado, narigudo, gordo, fedendo a gordura. Alguma coisa estava muito errada, tateou o corpo nu, limpou a garganta para ouvir sua voz e não se lembrava de nada. Avelhantado e sem memória, onde estaria?


16.02.1882 – Mariane espreguiçou lentamente, antes de abrir os olhos. Seu corpo jovem estava nu e cheio de néctar, olhou ao redor e reconheceu o cabaré onde trabalhava. “Sou a mais impetuosa das garotas” pensou e sorriu. Não tinha pudores, inibições, tudo era prazer e  deleite, levantou cantarolando.

16.02.1822 – Garcia acordou chorando, em seus seis anos de idade, apanhava dia sim, outro também e o pai sempre muito violento, bêbado. A mãe parece não se importar, esta sempre com o rosto transfigurado, não se move, arrasta-se.

16.02.1762 – Pablo olhou o teto de seu quarto, sentido toda a carga de sua escolha, não gostava de mulheres. O que podia fazer? Elas não lhe despertavam nada. Mesmo o mais perfeito dos sorrisos, decotes, flores, nada lhe encantava. Gostava de mulheres para conversar. Só.

16.02.1702 – Sofia acordou assustada, o sol estava alto e domingo ninguém perde a missa. Somente os hereges. Meu deus até colocar este vestido, melhor é ir sem anágua mesmo, ninguém notará e vou salvar o dia, pensou.

16.02. 1642 – Caroline sentiu uma pressão sobre o corpo e acordou. Deus era o marido! Pensou, a não lhe deixar em paz, bastava deitar na cama que lá vinha ele a lhe amofinar, com aquela coisa semi-mole, se esfregado por horas, até cair exalto. Pensando ser o rei dos reis, se ele soubesse do escravo Feijó, aquilo sim, era de morrer de susto, homem de verdade, de deixar a cocha bamba.

16.02. 1582 – Balaoba acorda com o balançar do navio, finalmente havia conseguido cochilar, acorrentado pelos calcanhares, doía-lhe tudo. A escuridão roubando o tempo, não sabia por quantos dias estava ali, nem o que lhe aguardava quando chegasse.

Ramon esteve só pela vida, Mariane viveu cada dia como se ele fosse o último, Garcia foi assassinado pelo pai, ninguém notou, Pablo casou-se e teve quatro filhas, Sofia queimou na fogueira, Caroline envelheceu com o marido e o escravo Feijó, Balaoba foi lançado ao mar. Nenhum deles soube do outro.