sábado, 26 de novembro de 2011

NADA PRECISAVA SER EXPLICADO

Dois dias era o tempo exato que afastava Joana do aniquilamento da mãe, mas para ela o tempo não existia. Olhava para o fogão e via nitidamente a mãe fazendo o café, com seu jeito calmo e acomodado. Joana observa a mãe com estranheza. Seus olhos captavam uma cena, que parecia um quadro pintado por algum gênio criador, onde as cores se misturavam, se complementavam, numa dança suave e perturbadora. O que era existir? Pensou  Joana. Se alguém não me conhece eu não existo, afinal só a consciência do outro é que me faz concreta. Sou concreta dentro da cabeça de alguém. Fora dela não sou, então, o que serei eu? apenas um pensamento de alguém. Muitos pensamentos atravessavam a mente de Joana e ela tentava encontrar uma explicação, arriscando entender porque a mãe deixou de ser.
Joana sonhava, mas não um sonho comum ou surrealista, era mais uma visão, como se não estivesse dormindo. Ela notava seu espírito se projetando além do seu corpo, sorria diante de uma luz azulada, que cobria seu rosto, depois, do alto, observava a mãe caminhando pela casa, olhando cada detalhe, às vezes sentando, outras correndo.
Joana plainava acima da mãe e nada confundia aquele momento. Paz e harmonia, nenhuma lágrima, nada de hierarquia, apenas duas mulheres se encontrando, sem nada para dizer. Não havia necessidade de palavras, porque nada precisava ser explicado. Tudo cristalino. Nenhuma separação, aquele distanciamento que sentimos diante de algo que não somos nós, cada coisa uma coisa. No sonho o universo não se estendia, era homogêneo, único, completo. E Joana sentia sua completude.
- Joana! Gritou o pai
- Aii! Acordou assustada.
- Hora de trabalhar filha, logo você acostuma.
Joana pegou a lamparina da mão do pai e caminhou para a cozinha a fim de fazer o café, abriu a janela e observou a escuridão...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

NÃO CHORAVA POR DESCONHECIDOS

   
 Joana correu, com movimentos acelerados, um pé na frente do outro sem trégua e nenhum lugar parecia bom para descansar. Doía-lhe tudo, os cabelos, as pernas, a barriga, os olhos, que não cessavam de verter lágrimas. Uma dor tão grande, sem lugar. Sentia que estava pronta para enlouquecer. Tudo rompendo, como uma terrível tempestade, raios enormes, trovões assustadores. Joana caiu gritando, urrando, como um animal abatido.
   Depois de algumas horas a calma. Lembrou-se dos 8 irmãos que teria de alimentar, vestir, confortar... Recordou o olhar desolado do pai e o pedido da mãe para que tomasse conta de todos.
   Não podia pensar com seus 12 anos, pois a única coisa que queria era que a mãe não tivesse morrido e pudesse colocá-la no colo. O cheio de mãe é tão bom. A quenturinha que exala do seu corpo, parece cheiro de mel pensou.
   Joana balançou a cabeça, levantou e caminhou de volta para casa. Tinha os ombros alçados, tal qual soldado, pernas a marchar. De longe pode ver a aglomeração que se formava a porta do casebre. Olhou para baixo e percebeu que estava descalça e seu vestido muito sujo. Fez de conta que vestia sua melhor roupa e suportou os olhares de pêsames. Procurou os irmãos, que estavam encolhidos ao pé do fogão a lenha. Banhados, cabelos bem penteados e todos com suas roupas de missa. Os mais velhos choramingavam.
- Por onde andou? Perguntou o pai com um fio de voz.
- Esfriando a cabeça. Olhou para baixo.
- Já vamos levar sua mãe para sede da fazenda, o patrão disse que podemos enterrá-la no cemitério da fazenda.
- E o padre?
- Sabe que nesta lonjura não vem padre.
- Mamãe ia querer. Tem o senhor Jordenho da venda, que ajuda o padre em dia de missa.
- Vou falar com o patrão. Saiu com passos de gato.
  Joana olhou ao redor e percebeu a solidariedade das mulheres, lavaram a roupa, varreram a casa, fizeram comida para os pequenos e café para a multidão.
   Era preciso tomar coragem e entrar na sala, onde jazia inerte sua mãe, respirou fundo e caminhou bem devagar. Viu primeiro o lençol branco, depois algumas flores, colhidas do quintal e por fim um rosto. Estranho olhar uma pessoa que morreu. Parece não ser minha mãe. Esta não é minha mãe, pensou Joana e não chorou, pois não chorava por desconhecidos.

domingo, 13 de novembro de 2011

como dizia MFC


mfc disse...

Todo o vento é mensageiro!
Todo o vento é mudança!
Todo o vento deve ser ouvido...

Joana caminhou rapidamente até o rio. Seus olhos estavam alheios, fixos em algo que não pertencia àquele lugar. O ar apertado, sem vento, fazendo todos os sentidos de Joana aguçar. Com o pote, ela pegou água, colocou na cabeça e retornou para junto de sua mãe.
Avistou a pequena casa e ouviu o murmurar das mulheres a rezar. Na porta, sentado em um banco de madeira, permanecia seu pai por mais de 20 horas, com o mesmo olhar de Joana. Ao longe 8 crianças brincam sem saber de nada. Joana observou a correria do pique - esconde e deseja não ser a irmã mais velha. Queria brincar, correr, não desejava continua ali, ouvindo os gritos, escutando o cochicho das vizinhas, sem poder fazer nada.
- Joana!
- Sim.
- Entre no quarto, sua mãe chama.
As pernas bambearam, o coração disparou. Entrou com a sensação dos mal-afortunados. Não reconheceu o rosto da mãe, transfigurado de dor, de uma palidez bucólica, parecia a Virgem Maria.
- Venha Joana, não tenho muito tempo.
- Que foi mãe.
- O bebê não quer nascer.
- Não. (Começou a chorar)
- Minha filha, eu sei que tem apenas 12 anos, mas deve ser forte. Seu pai vai precisar muito de sua ajuda e seus irmãos ainda mais.
- Não quero ouvir.
- Escuta, cuide de todos, por mim. Prometa filha que nunca vai abandonar seus irmãos.
- Eu prometo. (Saiu correndo do quarto, como se mil demônios a perseguissem)
Lá fora o vento furioso levantava a poeira. Vento mensageiro. Vento de mudança, como dizia MFC.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011



Um vento polvoroso de agosto,

soprou forte, com gosto.
Por onde ele havia andado?
Não se sabia.
Quantas noites ele refrescou?
Quantas árvores tentaram detê-lo?
Ninguém o conhece.
É apenas um vento.
Sem passado.
Sem futuro.
Não disse a que veio.
Nada perguntou.
Apenas é parte de um momento, que aconteceu em agosto.
Rendido por uma alma humana.
Soprou e passou.
Como passam todas as coisas...
Pessoas...
Situações...
Momentos...
Evaporando por entre a insignificante percepção.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Infecção generalizada do planeta!

As pessoas ficam horrorizadas com dados estatísticos de mortes por acidentes, por catástrofes, “Et cetera” e tal. Eu, particularmente, fico abismada com a quantidade da população mundial, que passa dos 7 bilhões. Como é possivel tantos seres de uma mesma espécie habitando um único lugar? Posso dizer que é quase uma infecção generalizada do planeta.

Levando-se em conta que a maioria das pessoas não tem responsabilidade para com o outro (aquele que é diferente delas mesmas) e que suas ações são pautadas na sastifação imediata de suas necessidades, seja elas quais forem, podemos concluir que as perspectivas para uma existência humana tranquila são ínfimas.