NADA PRECISAVA SER EXPLICADO

Dois dias era o tempo exato que afastava Joana do aniquilamento da mãe, mas para ela o tempo não existia. Olhava para o fogão e via nitidamente a mãe fazendo o café, com seu jeito calmo e acomodado. Joana observa a mãe com estranheza. Seus olhos captavam uma cena, que parecia um quadro pintado por algum gênio criador, onde as cores se misturavam, se complementavam, numa dança suave e perturbadora. O que era existir? Pensou  Joana. Se alguém não me conhece eu não existo, afinal só a consciência do outro é que me faz concreta. Sou concreta dentro da cabeça de alguém. Fora dela não sou, então, o que serei eu? apenas um pensamento de alguém. Muitos pensamentos atravessavam a mente de Joana e ela tentava encontrar uma explicação, arriscando entender porque a mãe deixou de ser.
Joana sonhava, mas não um sonho comum ou surrealista, era mais uma visão, como se não estivesse dormindo. Ela notava seu espírito se projetando além do seu corpo, sorria diante de uma luz azulada, que cobria seu rosto, depois, do alto, observava a mãe caminhando pela casa, olhando cada detalhe, às vezes sentando, outras correndo.
Joana plainava acima da mãe e nada confundia aquele momento. Paz e harmonia, nenhuma lágrima, nada de hierarquia, apenas duas mulheres se encontrando, sem nada para dizer. Não havia necessidade de palavras, porque nada precisava ser explicado. Tudo cristalino. Nenhuma separação, aquele distanciamento que sentimos diante de algo que não somos nós, cada coisa uma coisa. No sonho o universo não se estendia, era homogêneo, único, completo. E Joana sentia sua completude.
- Joana! Gritou o pai
- Aii! Acordou assustada.
- Hora de trabalhar filha, logo você acostuma.
Joana pegou a lamparina da mão do pai e caminhou para a cozinha a fim de fazer o café, abriu a janela e observou a escuridão...

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