Uma força mergulhando suas entranhas na inércia


O Chão limpo exala o cheiro de cera recém espalhada, Antônia, mesmo desacordada, sente o ardor invadir suas narinas. Duela consigo mesma, sua alma luta para abandonar o corpo, mas seu corpo, neste momento, não quer morrer.
Enfraquecida, a cabeça rodopia em mil pensamentos, mesmo possuindo um turbilhão dentro de si é capaz de ouvir os carros passando enlouquecidos pela rua, tudo é confusão.
O som alarga-se e espantada descobre ser apenas uma  pequena poeira solta no firmamento. Flutuado aleatoriamente, nublada, estrábica, tonta, desejosa de escapar, fugir da morte iminente e ter tempo para lutar contra sua insignificância.
Os braços doloridos, pois nas veias de seu corpo corre um sangue amarelado, fraco, sonso... talvez isto explique toda a sua passividade diante da vida.
Por muitos anos detestou ser mulher, pois alguma coisa, que ela não sabia ilustrar, a incomodava. Uma força mergulhando suas entranhas na inércia. Tinha vontade de ser diferente, queria ser capaz de revoltar-se, de uma forma tão completa, que toda a sua estrutura psicológica e física se modificasse, mas continuava sempre com o mesmo sorriso patético dos que ambicionam agradar.
Quis libertasse da servidão materna, que sempre a deixou indignada, afinal estar pronta a atender as necessidades dos filhos, que exigem, que ordenam, que manipulam, tão ferozmente, é de uma obscenidade chocante.
O rosto esfria, formigando pausadamente. Tudo que tem de seu é este ódio que aumenta, majora, sufoca diante do fato de morrer assim, entregue, sem dignidade... Sente a garganta apertasse, perde os sentidos lentamente... Lembrando-se da labuta do tanque cheio de roupas.
Roupas que parecem nunca ficarem limpas, num circulo infinito, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, suja, limpa, tal qual o tique taque das goteiras de seu barracão e o canta do canarinho da terra.
– Teria nascido apenas para lavar roupas? Pensa Antônia. Ninguém se lembra de quem lava roupa, quem limpa o chão e muito menos de quem lava as vasilhas, porque aparentemente elas se sujam e se limpam por si só.
¬¬- Mulheres do lar são fantasmas!!! – quer gritar Antônia, sentindo o calor de lágrimas correndo por sua face, tudo em sua vida foi tão medíocre que chega a doer. Dói não ser ninguém. Lembrou-se do amado poeta Fernando pessoa que dizia:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Antônia sempre sonhou ser alguém, mas a percepção de que a vida é uma eterna repetição de fatos acontecidos, endoideceu Antônia. Louca ao ponto de permanecer dias internada em clinica psiquiátrica.
Longe de seu cotidiano fica em paz.
Esquece do mundo e de si mesma. Entorpecida pelos remédios, abrigada nos altos muros da compreensão medicinal. Despovoada da angústia que se escondem nas pequenas coisas.
Fragmentos de Antônia, eternos momentos onde quase sempre a língua narcotiza com o gosto salino das panelas entupidas de arroz, feijão, abóbora... A fadiga do choro estridente das crianças, tudo se transmuda em esquecimento e não há mais ninguém no quarto.

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