Resenha crítica - CORREIA, João Carlos. Netativismo e indignação na esfera pública. Revista Mídia e Cotidiano.v.9 n.9 Agosto/2016 Rio de Janeiro: PPGMC/UFF, 2016.



                                                                                  Elizabeth de Lima Venâncio[1]

            O ponto chave do texto em referência parece ser a percepção de que ocorreu uma mudança estrutural na noção de esfera pública a partir da aparição do conceito de  sociedade em rede. A questão que se coloca é: de que modo às práticas e discursos envolvidos nas redes sociais desencadeiam novas configurações na participação dentro dos espaços públicos. Para desvelar essa questão o pesquisador irá fazer uma análise dos movimentos portugueses anti-austeridade.
            Segundo o autor, o modelo unitário de esfera pública foi sendo progressivamente abandonado para, em seu lugar, se erguer a atenção a uma rede heterogênea de públicos que podem inclusive repensar, renegociar e reconsiderar questões controversas, geralmente excluídas da agenda, desenvolvendo uma especial sensibilidade para temas progressivamente abandonado para, em seu lugar, se erguer a atenção a uma rede heterogênea de públicos, geralmente excluídas da agenda, desenvolvendo uma especial sensibilidade para temas que ficam confinados à periferia da sociedade civil.
            Se por um lado, Correia diz que a análise da configuração epistemológica dos debates públicos fez com que o conceito de espaço público estivesse sujeito a intenso reexame desde a sua formulação clássica por Jurgen Habermas. Momento em que a esfera pública foi apresentada por Habermas como um espaço de liberdade, onde os seus participantes se reconhecem como livres e iguais, demonstrando a racionalidade dialógica gerada na discussão das pessoas privadas reunidas num público. Nas formulações posteriores, a esfera pública materializou-se numa rede de sensores localizados no interior da sociedade, sensíveis às pressões dos problemas coletivos e, também, como uma caixa-de-ressonância que amplifica a pressão dos problemas, tematizando-os e dramatizando-os de modo a serem assumidos e considerados por aqueles que tomam as decisões.
            Por outro lado, o texto ressalta o lado negativo da participação de audiências que na visão do autor não significou necessariamente um aumento da qualidade da cidadania já que também aumentaram as possibilidades de as pessoas depreciarem pontos de vista alternativos. As redes sociais, com suas causas e grupos temáticos, seriam responsáveis por ambientes fragmentados, com impacto negativo sobre o diálogo racional.
Apesar da contradição apresentada, Correia reafirma ao longo de sua argumentação que as novas tecnologias facilitaram o envolvimento dos cidadãos na observação e interpretação dos acontecimentos e que é preciso além de entender o conceito de público, também compreender o conceito de multidão, pois tais conceitos desempenham um papel interessante, para se referir a uma realidade multifacetada, contraditória e dotada de capacidade de inovação criativa.
            Conforme Correia, os resultados de seus estudos dos movimentos portugueses anti-austeridade enunciaram as mesmas características comuns: um discurso centrado na denúncia do sistema econômico e na captura das instituições e agentes políticos pelo poder financeiro; a exigência de “mais” ou de uma “verdadeira” democracia; a juventude catalisadora de lutas sociais mais amplas; uma certa recusa da delegação e um ceticismo mais ou menos ressentido em relação à ação institucional; a produção de novas referências plásticas e estéticas; a ocupação transgressiva do espaço público; a valorização da diversidade de expressão nos protestos de rua; o uso intensivo das redes sociais; a importância da cultura audiovisual e das novas tecnologias de informação e comunicação; a busca de formas tendencialmente horizontais de organização.
            Os movimentos trouxeram traços completamente distintivos em relação a elementos fundamentais da caracterização clássica da esfera pública como a fragmentação e o papel atribuído à racionalidade estético-expressiva. Verificou-se o uso de léxicos e recursos simbólicos com configurações marcadas pela atenção à linguagem icônica, aos elementos multimidiáticos e ao uso da ironia.
            Existe, segundo Correia, na comunicação reticular uma dificuldade de partilha de memória que permitam a formação de um background comum de trocas de aprendizagem.  É nesta linha que parece ser mais produtivo contextualizar e compreender ações e protestos, levadas a efeito de uma forma ritualista detonando uma nova gramática das identidades políticas. Simplesmente, as suas agendas parecem muito mais centradas na discussão das políticas e não da política não se mostrando particularmente atraídos por propostas utópicas de transformação social total, no sentido que era conferido pelas grandes narrativas da modernidade.
            O texto foi apresentado de forma estruturada e nos conduziu a perceber a complexidade da questão de como se dá a participação da audiência na esfera pública por meio da comunicação reticular.
            Diante dos argumentos, a conclusão do autor de que não houve um aumento da qualidade da cidadania só se justifica no cenário da sua pesquisa. Afinal, se for utilizado como base de análise a Primavera Árabe pode-se afirmar que a participação popular em grandes manifestações em decorrência do acesso maior as tecnologias da comunicação promoveram mudanças significativas, tais como a queda de ditadores.
            No entanto, dizer que a qualidade da cidadania não aumentou remete ao fato de que a transformação ou reestruturação da dinâmica de interação entre as pessoas não significa, necessariamente, melhoria das relações que promovem a cidadania.
            Muda-se a forma de participação, mas permanecem os entraves das circulações simbólicas de sentidos. Abre-se nesse texto, um parêntese para dizer que: compreender como se dá essa circulação de sentidos na internet configura o objetivo da pesquisa que se encontra em andamento de minha autoria. Pretende-se verificar o especificamente comunicacional que habita o cenário da intolerância religiosa e por que em pleno século XXI ainda persiste práticas de negação de direitos inerentes à cidadania, já pacificados na legislação.
            Nos últimos anos tem-se observado o crescimento de denúncias de intolerância Religiosa no Brasil. O Disque 100, principal canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos para registro de denúncias, contabilizou no ano de 2015 um total de 556 denúncias, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. No ano de 2011, quando o serviço começou a registrar denúncias de discriminação por religião, foram contabilizadas 15 denúncias, já em 2015 esse número passou para 556 casos, ou seja, um aumento de 3.706% nos registros de denúncias por intolerância religiosa no Brasil.
            Diante desse quadro pensou-se que talvez fosse possível identificar no ambiente de circulação simbólica de sentidos elementos comunicacionais da prática social da intolerância religiosa, na perspectiva de que o locus da pesquisa poderia propiciar uma compreensão da interação mediada pelo sistema virtual da internet, o qual, devido às peculiaridades próprias do processo digital em rede, promove diferentes formas de interação, inclusive o diálogo e a negociação de sentidos e significados.
            Assim, realizou-se um recorte de uma ação judicial requerendo a retirada da internet de 14 vídeos postados no Google Brasil, e considerados ofensivos por representantes das religiões: umbanda (brasileira) e candomblé (afro-brasileira). Neste caso em apreço, o Estado negou o pleito e afirmou, por meio de ato do juiz, que as impetrantes não se constituíam como religiões, deslegitimando-as.  O fenômeno ocorreu de abril a junho de 2014, com destaque em rede nacional por emissoras de televisão e rádio, não só nos meios jornalísticos, como também, programas de talk show, blogs, sites de cunho religioso, jurídico e político. Foram catalogados mais de 132 sites que trataram do assunto.
            A luz dessa pesquisa, o texto de Correia nos permitiu adentrar na discussão do tema net-ativismo, tendo a possibilidade de observar que o poder e alcance da comunicação agregam uma nova força profunda como algo potencialmente global e não somente de opinião pública. Em um mundo cada vez mais globalizado, as experiências vividas em qualquer país servem de referência para o mundo inteiro.
            Sabe-se que hoje, qualquer pessoa que tenha acesso a uma rede de internet pode conseguir informações de muitas partes do mundo, assim se acredita que tal condição seja um fator intensificador de mobilizações e práticas sociais. Afinal, tomar conhecimento que o ditador de um país distante perdeu o poder, favorece a consciência de que é possível alterar a ordem das coisas. Entretanto, tal cenário coloca questões complexas em perspectiva, por exemplo: como se dá a formação da opinião pública reticular? O que é esfera pública a partir da sociedade em rede? Qual a dimensão dessa esfera pública? Qual o alcance da opinião pública? Estas e outras questões ressoam em sociedade, diante do aumento potencial dos medias.
            Por fim, diferente de Correia, acredita-se que é possível olhar para o net-ativismo com outra perspectiva: a de que a sociedade moderna iniciou uma nova era em que talvez seja mais viável a materialização de suas queixas, que se iniciam no ciberespaço e terminam em práticas sociais concretas de conquista de direitos à cidadania. Nesse sentido, pode-se esperar uma sociedade cada vez mais presente no cenário em que habita o cidadão-comprometido.
             





[1] Mestranda em Comunicação – FIC/UFG

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