SUPORTAR O OUTRO, ATÉ QUE PONTO?


 O convívio com o outro na internet permite debates que podem ser positivos ou negativos, a partir de ideias comuns e/ou conhecimento de culturas diferentes, mas muitas experiências tornam-se negativas por conta de discursos de ódio, que contribuem para a prática da intolerância. Será possível impedir que as diferenças étnicas, religiosas, linguísticas, culturais etc., que existem nas sociedades democráticas, despedaçadas pela diversidade, não caminhem no sentido da oposição, da negação recíproca e, em algumas vezes, da luta até a morte?
Esse é um dilema social difícil, por exemplo, quanto ao fato de se pensar em restringir as liberdades básicas de expressão e de comunicação. Afinal, pode-se permitir que se diga qualquer coisa em qualquer lugar? Pode-se ofender e ser racista ou neonazista sem que o outro se pergunte: devo tolerar este intolerante?
Diante disso, torna-se premente provocar uma reflexão acerca de até onde uma prática social é tolerável, ou, inversamente, a partir de qual limite uma prática se torna intolerável.
O conceito de tolerância, segundo Zarka (2013),  implica essencialmente reciprocidade. Ela supõe a capacidade de abandonar a perspectiva unilateral que é espontaneamente a do nosso eu individual ou coletivo para deixar subsistir, frente a si, o outro em sua existência e em seu direito. Pensar a tolerância significa, então, pensar um limite à tolerância, sem o qual este conceito se autodestruiria. A reciprocidade permite definir esse limite de maneira interna: não pode existir tolerância que não seja recíproca. Uma tolerância, em sentido único, será simples permissividade e confissão de fraqueza. A tolerância não é apenas o espírito de abertura, de acolher a diferença, o reconhecimento do direito do outro, ela é também uma exigência endereçada ao outro de ele assumir para si as mesmas disposições de reconhecimento e acolhida que assumimos para nós mesmos. Assim, a tolerância apresenta uma dupla exigência endereçada a si e ao outro no sentido de estabelecer e manter a reciprocidade que permite a coexistência.

Autora: Elizabeth Venâncio
REFERÊNCIAS
ZARKA, Yves Chales. Difícil tolerância: a coexistência de culturas em regimes democráticos. Tradução Anderson Vichinkeski Teixeira. São Leopoldo RS: Editora Unisinos, 2013

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