O hábito da violência

         Que sociedade está sendo construída pelos brasileiros? A televisão é uma das construtoras de sentidos das praticas sociais? Se for: quais são os sentidos engendrados todos os dias? Será que o cidadão pensa com um raciocínio-lógico-argumentativo acerca de temas como esses?
            A ordem social histórica que conhecemos é gerada no âmbito coletivo, por grupos e instituições, mas também na esfera do individual, por mitos, ideologias, valores, desejos. Se no passado, os vetores dessa geração foram sucessivamente Deus, a Verdade e a Razão, hoje pode-se apontar para a tecnociência aliada ao deus-mercado, conforme nos ensina Muniz Sodré em seu livro  Antropológica do espelho.
            É sabido que as relações entre os indivíduos são alteradas pela informação e conteúdo simbólico trazidos pela mídia, mas também se conhece que talvez o indivíduo não tenha acesso a todas as informações que se deveria. Ou, com a utilização da internet se receba mais informações que se possa compreender.
         As vozes, sobretudo, dos jornalistas criam, mais do que reflete a realidade. Os meios de comunicação são locais requintados nos quais a sociedade obtém informações, observa e compreende boa parte da dinâmica social e política.
           Um estudo coordenado pela pós-doutora Ana Carolina Temer, da Universidade Federal de Goiás, intitulado Jornalismo, Cidadania e sensacionalismo na TV goiana constatou que no contexto midiático atual a representação do relacionamento humano é  marcado pela violência física, ganha-se tons intermináveis de medo e dor, mas pouco é discutido  acerca de direitos ou políticas públicas de combate à violência, principalmente, contra a mulher.
            Contam-se facadas e tiros, a quantidade de socos ou os detalhes das torturas, como quantidade de horas, os objetos inusitados e as sequelas deixadas, tudo para assombrar o cidadão comum. O cotidiano virtual da violência se alimenta de novos fenômenos bizarros, fora do padrão do bom senso.
            Isso, pode ser observado com precisão nas sequências de matérias acerca do “Estupro Coletivo”, ocorrido no Rio de Janeiro, no mês de maio, deste ano. Muito se questionou se ela, a vítima, contribuiu para que aquilo acontecesse, devido às supostas condições de miséria e degradação compartilhadas em favelas. Pouco ou quase nada se falou que um ser humano nunca deveria ser agredido dessa maneira, naquilo que lhe é mais intimo, sua dignidade. Como pode que julguemos primeiro a conduta da vítima e depois do agressor?
            Um caso semelhante ocorrido na Índia, mas onde a vítima foi morta. Segundo o estuprador e assassino a moça não deveria andar sozinha, na rua, às 23 horas. Esta declaração necessita chocar, mas do que receber acenos de cabeça concordando.
             Desse modo nossa realidade parece um conto dos horrores e pode-se concluir que apesar da influência inegável dos meios de comunicação na perpetuação virtual de práticas sociais de violência, é o ser humano que possui uma acomodação natural ao cotidiano da dor. Acostumou-se à vida de violência. Que fazer? Talvez refletir sobre os versos do poeta Augusto dos Anjos “Acostuma-te à lama que te espera!/O homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera.”

 Elizabeth Venâncio
Filósofa, jornalista, mestranda em comunicação

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