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O QUÊ FOI?

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- O quê foi? – falou Maria. - Não sei. Tudo é severo, inexplicável. - Por que está em meu quarto?    - Estou em todos os lugares com você. - É sempre assim, sem lucidez. - Ora, não reconhece meu olhar de repreensão. - É tão difícil agradá-la. - Por que conheço seus sonhos de infância,  os mais longínquos. - Qual o problema? - O tempo se esgota.    - O quê quer? - Responda você! Eu sou apenas um reflexo no espelho. 

PERCEBO O INDISTINGUÍVEL

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Corro sozinha, nenhum vocábulo, somente axiomas. Revivo meus entes queridos, que não posso tocar. Lembro coisas que fiz há anos e que ainda me sinto culpada. Perdôo a mim mesma e corro. Reflito acerca de tudo, noto as árvores. Gosto mesmo de correr sozinha! O tempo se torna infinito. Arrazôo a teoria do caos. Penso em mil formulações e conceitos, querendo definir o que sou. Quem sou? Gosto de correr sozinha, mas nunca estou só. Convivo com os pisares desengonçados, elegantes, vacilantes... de tantos que não sou eu. Sou diferente... E mesmo diferente faço parte, como se fosse um fragmento da calçada, um pedaço do  céu. Gosto de correr sozinha, por que percebo o indistinguível.

PÁSSARO SEM CANTO

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  Quero teus olhos nos meus! Todas as palavras na boca! Quero  entender o caos, sintetizando a manhã. Há dor na proximidade que cala. Obscurecendo o  infinito. Está tudo aí? Não sei. Preciso das palavras, não das caretas. Signos e sons... Quero morrer com as sílabas. Nunca no silêncio do ser obnubilado? Pássaro sem canto.

A escolha ecoa no infinito

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Somos eternamente responsáveis por nossas escolhas. Mesmo diante do imponderável. Ainda, confiando que não há alternativa. Sempre será uma escolha. Uma senhora envelhecida e dois filhos adultos e drogados. Opções: deixar que os filhos sigam seu caminho, OU permanecer no inevitável sofrimento: violência, roubo, desrespeito... Quem poderá julgar? Os deuses nos permitiram escolher, mas a escolha ecoa no infinito.

Como deixa-las falar?

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É bizarro desejar algo ardentemente e não ter a graça divina para alcança-la. De onde virá o anseio? O gosto doce do encontro com as letras. A palavra no papel. Precariedade de aptidão. Histórias presas em mim. Querendo ganhar vida. Viver amores, tragédias... Como deixa-las falar?

PEQUENO URSO

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Um urso muito pequeno e carinhoso caminhou até um rio enorme e ficou observando os peixes passarem por ele. Tudo o que conseguia ver era a imensidão das águas, a forma voluptuosa como o vento majorava as  ondas. O rio corria forte, intransponível, soberano, nunca igual, sempre novo, desafiando a vontade. No meio do rio, os peixes a zombar do pequeno urso, que sentiu seus olhos  ficar turvos e uma lágrima percorrer quieta  seu rosto. Ele experimentava sua impotência e a culpa por sua covardia. O rio era demais para o pequeno urso, então se sentou e esperou que seu corpo nada pedisse. - Que faz aí? Perguntou a gaivota - Observo os peixes. Respondeu o urso - É um artista? - Não, tenho fome. - Então, por que não se joga no rio? - Por medo de minha insignificância. Não vê a imensidão, com certeza morrerei. - De todo modo morrerá.  Você já tem um não, agora precisa correr atrás do seu sim. O urso pensou, refletiu e galopou para o ...

A insustentável perfeição!

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Beatriz aos 40 anos diante da pergunta “Gostaria de voltar a ter 20 anos?” Que maravilha ter 20 anos relembrou Beatriz, onde todas as possibilidades estão latentes. O momento exato em que tudo é possível.  Fazer diferente, ser distinto e criticar. No corpo a vitalidade, no coração o desejo e na cabeça nenhuma razão!  “Não! não desejo ter 20 anos, pois gosto dos meus olhos agora, de perceber as coisas sem pressa, de acariciar as plantas, de ter tempo para cada episódio, sem que nada me pareça inútil. Gosto de saborear a vida em pequenos detalhes, de apreciar meu rosto no espelho e não ter vergonha do meu corpo. O tempo aos 20 anos parece infinito, mas aos 40  ele é o logos , a insustentável perfeição.”